As 9 praias mais bonitas da Ilha Grande, com acesso honesto

A Ilha Grande tem mais de cem praias e nenhum carro para chegar a elas. Essa combinação explica por que as mais bonitas continuam bonitas: cada uma cobra um pedágio de trilha, barco ou madrugada, e o pedágio filtra a multidão. A gente escreve com a régua de quem trabalha nessa baía: a escuna do nosso grupo sai de Paraty e passa o ano cruzando a Ilha Grande, então algumas dessas praias fazem parte da nossa rotina e outras a gente conhece como qualquer viajante, pagando o pedágio.
Este ranking é honesto nos dois sentidos: diz o que cada praia tem de melhor e o que ela cobra de verdade para chegar. Para o contexto geral da ilha, o ponto de partida é o guia do que fazer em Ilha Grande; para a logística de barcas e lanchas desde o continente, o de como chegar.
1. Lopes Mendes
Os 2,5 km de areia branca e fina que colocaram a Ilha Grande nas listas de praias mais bonitas do mundo. Mar aberto, ondas que formam surfista, nenhuma construção na orla: só areia, amendoeiras e o barulho do mar. O acesso é o pedágio clássico da ilha: barco do Abraão até a praia do Pouso e trilha de 20 minutos por cima do morro, ou caminhada de umas 3 horas pelas trilhas T10 e T11. Não há quiosque; leve água e o que for comer.
A verdade sobre o horário: Lopes Mendes de manhã cedo e Lopes Mendes ao meio-dia são praias diferentes. Os barcos de excursão despejam gente a partir do fim da manhã. É por isso que, na expedição de três noites do Albatroz, a escuna dorme ancorada e desembarca no Pouso logo cedo: você cruza a trilha com a mata ainda úmida e chega na praia gigante quase vazia, antes do fluxo. Se a escolha fosse nossa (e ela é, todo roteiro), seria sempre assim. O dossiê completo da praia está no artigo de Lopes Mendes.
2. Aventureiro
Praia do Aventureiro e seu coqueiro deitado. Foto: Renata Paganotto, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons
Do outro lado da ilha, voltada para o mar aberto do sul, o Aventureiro é uma vila caiçara de cerca de 100 moradores dentro de uma reserva de desenvolvimento sustentável. O coqueiro deitado sobre a areia virou o retrato mais famoso da ilha, mas o que segura o viajante é o conjunto: praia selvagem, comunidade que recebe em campings simples autorizados e visitação limitada a 560 pessoas por dia, o que garante que nunca vire balneário.
Transparência de quem escreve: a rota da nossa escuna não passa pelo Aventureiro, e não vamos fingir que passa. Vá por conta, de flex boat desde Angra dos Reis (o mar do trajeto é aberto, respeita quem enjoa) ou pela trilha a partir de Provetá. Durma pelo menos uma noite: o bate-volta desperdiça o melhor do lugar, que é o fim de tarde sem barcos. O guia completo está em praia do Aventureiro.
3. Dois Rios
A praia mais carregada de história do litoral fluminense: entre dois rios que desaguam nas pontas da areia ficam as ruínas do presídio Cândido Mendes, que funcionou de 1903 a 1994 e deu à ilha décadas de isolamento (é a ele que as praias devem estarem tão preservadas). Hoje a vila é administrada pela universidade estadual, que mantém no local o Museu do Cárcere. Mar forte, areia larga, quase ninguém.
O acesso é por trilha, a T14, cerca de 2 horas de caminhada por trecho desde o Abraão pela antiga estrada do presídio. Saia até as 8h, leve 2 litros de água e confira o horário do museu antes de ir. A história completa está no artigo de Dois Rios.
4. Lagoa Azul
Aqui vale explicar: a Lagoa Azul não é praia, é um ponto de mar. Fica entre ilhotas junto à Freguesia de Santana, no trecho da ilha mais próximo do continente, e é uma piscina natural rasa de água azul clara onde cardumes de sargentinhos cercam qualquer pessoa que entre na água. Não existe areia para estender canga: você chega de barco, nada, mergulha de máscara e segue viagem.
O detalhe que muda tudo é o relógio: por estar perto de Angra, a lagoa recebe as escunas do continente e lota no meio do dia. Cedo de manhã, é outro lugar. A comparação com a irmã do lado noroeste, incluindo horários, está no nosso comparativo Lagoa Azul ou Lagoa Verde.
5. Lagoa Verde
A outra lagoa, na costa noroeste, entre a praia da Longa e Araçatiba. Também é ponto de mar, não praia, e a cor aqui vem do reflexo da mata e do fundo: um verde de vidro de garrafa, com corais esverdeados, cavalos-marinhos e, com sorte, tartaruga. É mais protegida e costuma estar mais calma que a Azul, especialmente no fim da tarde, quando os barcos de excursão já voltaram e a luz fica baixa. Se estiver hospedado em Araçatiba, dá para chegar por trilha curta ou de caiaque; do Abraão, só de barco. Entre as duas lagoas, é a nossa preferida, e explicamos o porquê no comparativo.
6. Caxadaço
Uma dobra de pedra escondida perto de Dois Rios: praia pequena, de poucos metros, protegida do mar aberto por pedras enormes que formam uma piscina natural funda e transparente. É um dos melhores pontos de máscara e snorkel da ilha, com corais e peixes no canto direito. Chega-se pela trilha T15, uns 4 km a partir de Dois Rios com descida final íngreme, ou de barco nos roteiros de volta à ilha. Combine com Dois Rios no mesmo dia e vá com tênis de sola boa: a descida escorrega.
7. Parnaioca
A praia deserta de quem acha que Lopes Mendes tem gente demais. Fica na costa sul, depois de Dois Rios pela trilha T16, e junta mar aberto, um rio de água doce para tirar o sal e o silêncio de um lugar onde já existiu uma vila caiçara e hoje restam poucas casas e um camping. É travessia longa e selvagem: só com o dia inteiro pela frente, preparo físico e, de preferência, companhia. Para dias de mar bom, alguns barcos de volta à ilha param na areia; pergunte no cais do Abraão.
8. Praia Preta
A mais subestimada da lista, porque está a só 20 minutos a pé da vila e as pessoas confundem perto com sem graça. A areia escura de minerais pesados brilha ao sol, um riacho forma poço de água doce na entrada, as ruínas do Lazareto (1886-1913) mofam ao fundo e as pedras dos cantos guardam bom snorkel. É a praia perfeita para o primeiro ou o último dia, quando não há tempo de barco. Combine com o aqueduto de 1893 no mesmo circuito, a trilha T1, e leve máscara: os detalhes estão no guia da Vila do Abraão.
9. Feiticeira
Enseada pequena do lado noroeste, de água calma e transparente, com uma cachoeira de trilha curta na vizinhança para completar o dia de água doce e salgada. Entra nos roteiros de barco de meia volta à ilha e rende bom banho de máscara nas pedras. Micro-dica: nos roteiros de barco ela costuma ser parada rápida; se a ideia é ficar, negocie com um táxi-boat para buscar mais tarde.
O mapa mental para escolher
Um jeito simples de organizar a decisão: praias do lado do continente (Abraão, Preta, Feiticeira, as lagoas) são de água calma e acesso fácil; praias do mar aberto (Lopes Mendes, Dois Rios, Parnaioca, Aventureiro) são as gigantes selvagens que cobram trilha ou barco mais longo. Quem tem dois dias fica no primeiro grupo mais Lopes Mendes; quem tem quatro ou mais alcança o segundo. As contas de tempo estão no artigo sobre quantos dias ficar e as de dinheiro no quanto custa.
E um lembrete de quem vive essa costa: praia não é tudo. A ilha tem trilhas de floresta, ruínas, um pico de 982 metros e uma vila que merece o seu fim de tarde; o equilíbrio está no guia de trilhas. E se a viagem for maior que a ilha, o litoral inteiro entre Rio e São Paulo segue a mesma lógica de mar e mata: vale abrir as praias da Costa Verde antes de fechar o roteiro.
No fim, a praia mais bonita da Ilha Grande é a que você pega no horário certo: Lopes Mendes às 8h da manhã ganha de qualquer outra ao meio-dia. Escolha duas ou três desta lista, chegue cedo nelas e deixe o resto para a próxima vinda, porque vai haver uma. Comece decidindo a sua primeira: o artigo de Lopes Mendes é o próximo passo natural.
