Praias imperdíveis da Costa Verde

A Rota Verde Azul, que uniu oficialmente Angra, Paraty, Ubatuba e Ilhabela num destino só em 2025, soma cerca de 2,2 mil praias. Ninguém conhece todas, nem quem mora aqui. E a gente mora: quem escreve vive desse litoral e nesse litoral, o que torna esta lista suspeita e, ao mesmo tempo, é a razão de ela funcionar. Não entrou areia que a gente não conheça de verdade, com maré, borrachudo e feriado cheio incluídos.
A lista cobre o corredor inteiro, do Rio de Janeiro a São Paulo, e tem um segundo viés assumido: praias com personalidade. Quase todas pedem trilha ou barco, porque na Costa Verde o acesso difícil é o que mantém a areia do jeito que está. Ordenamos de leste pra oeste, na sequência de quem viaja do Rio em direção a São Paulo, o mesmo sentido do nosso guia definitivo da Costa Verde. E vale o lembrete: praia é um recorte da região, não o todo; as trilhas e as cachoeiras renderam guias próprios.
Lopes Mendes, Ilha Grande
O cartão de visita da região e uma presença constante em rankings mundiais: 2,5 km de areia branca tão fina que range sob o pé, mar aberto de tons claros e zero construção. O mar tem ondas, o que a torna também um pico de surfe com pranchas de aluguel na própria areia. Leve água e lanche, porque estrutura lá dentro não existe. E se a escolha fosse nossa, ninguém a conheceria de bate-volta: o jeito que a gente recomenda é dormir no mar. O Albatroz fundeia perto da Praia do Pouso na noite anterior, e quem desce do convés com o dia nascendo cruza a trilha e encontra uma das areias mais famosas do país quase deserta. Quem atravessa do Abraão no meio da manhã encontra a mesma praia dividida com o resto da ilha.
Acesso por conta: táxi boat ou escuna da Vila do Abraão até a Praia do Pouso, mais trilha de 20 minutos. Guia completo na página da praia de Lopes Mendes.
Aventureiro, Ilha Grande
O coqueiro deitado do Aventureiro, símbolo do lado selvagem da Ilha Grande. Foto: Renata Paganotto, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons
No lado oceânico da ilha, dentro de reserva com visitação limitada, o Aventureiro é a praia do famoso coqueiro deitado e de uma comunidade caiçara que hospeda visitantes em campings simples. Dormir lá, com céu estrelado e mar batendo a poucos metros, é experiência de ilha deserta com rede de proteção.
Acesso: só por barco, saindo do Abraão ou de Angra, com vagas diárias limitadas; reserve antes. Contexto no guia de o que fazer em Ilha Grande.
Dois Rios, Ilha Grande
Dois rios deságuam um em cada canto da praia, formando poços de água doce pra tirar o sal. No meio, as ruínas do presídio Cândido Mendes, fechado em 1993, hoje Museu do Cárcere. Praia selvagem com camada de história: não existe outra igual no litoral brasileiro.
Acesso: trilha de uns 8 km desde o Abraão, por estrada de terra, 2h30 a 3h por trecho.
Cachadaço, Trindade (Paraty)
A enseada de Trindade tem quatro praias boas, mas o Cachadaço é o motivo da fama: uma praia de mar forte cercada de pedras gigantes e, do lado de dentro do costão, uma piscina natural de água calma onde os peixes nadam na sua canela. Dá pra fazer os dois no mesmo dia e sair com versões opostas da mesma paisagem.
Acesso: ônibus Colitur de Paraty a Trindade (27 km, uns R$ 5) e, de lá, trilha de uns 30 minutos ou barco até a piscina natural. Em feriado de verão a estradinha de Trindade trava; chegue cedo ou escolha outro dia.
Praia do Sono, Paraty
Uma vila caiçara inteira sem estrada: campings, restaurantes de peixe e casas simples espremidas entre a areia e a mata. O Sono é o portal do litoral selvagem de Paraty e um dos lugares mais queridos por mochileiros do Sudeste, com razão. A energia de fim de tarde, quando os barcos de turismo vão embora, não se explica, se sente.
Acesso: ônibus de Paraty até Laranjeiras e, do condomínio, trilha de uns 3 km (1h a 1h30, com subidas) ou barco de 10 minutos.
Antigos, Paraty
Vizinha do Sono e ainda mais crua: deserta, de areia dourada, sem qualquer estrutura, com mar aberto e pedras grandes emoldurando os cantos. Fica dentro de área de preservação onde acampar não é permitido, o que garante que ela continue exatamente assim. E aqui a gente assume a preferência da casa: esse litoral se apresenta melhor visto do mar. O Albatroz, escuna de 23 metros do nosso grupo, costeia essa península nas expedições que saem de Paraty rumo à Cajaíba e ao Mamanguá, e ver o Sono e Antigos do convés, sem uma construção quebrando a linha da mata, explica a preservação melhor que qualquer placa. Pra quem for por terra, combine com o Sono num bate-volta.
Acesso: trilha de uns 30 minutos a partir do fim da Praia do Sono, cruzando um rio raso e uma subida com trechos de escada.
Jabaquara, Paraty
A exceção urbana da lista, e com propósito: é a praia grande e rasa a uns 2 km do centro histórico de Paraty, alcançável a pé em 20 minutos. Água calma e morna, fundo que segue raso por dezenas de metros, caiaque e SUP de aluguel. É onde o paratiense leva as crianças e onde o Bloco da Lama nasce todo carnaval. Ideal pra fechar um dia de centro histórico com um mergulho sem pressa.
Acesso: caminhada de 20 a 30 minutos desde o centro de Paraty, passando pelo morro do Forte.
Praia do Félix, Ubatuba
Duas praias pelo preço de uma: o canto direito tem mar calmo, água transparente e piscina natural nas pedras do costão, ótimo com crianças; o canto esquerdo tem ondas de verdade e areia mais vazia, território de surfista. Do costão esquerdo sai ainda uma trilha curta pra prainha das Conchas.
Acesso: entrada no km 33 da Rio-Santos, por dentro de um condomínio, com descida de ladeira até a areia e estacionamento pago.
Itamambuca, Ubatuba
O pico de surfe mais famoso do litoral norte paulista, palco de etapas de campeonatos nacionais. A praia é longa, com rio desaguando num canto e uma vila de veraneio arborizada por trás. Mesmo quem não surfa aproveita: a faixa de areia é larga, o visual da serra é aberto e o rio forma um bom poço pra crianças na maré certa.
Acesso: de carro pela Rio-Santos, 13 km ao norte do centro de Ubatuba, com estacionamentos pagos na entrada da vila.
Maresias, São Sebastião
A praia jovem da Costa Verde: 5 km de mar aberto, ondas fortes no Canto do Moreira (que formou o bicampeão mundial Gabriel Medina) e a única vida noturna de verdade do corredor. Se a sua viagem pede um dia de praia cheia, música e gente bonita antes de voltar pro sossego, é aqui.
Acesso: de carro ou ônibus pela Rio-Santos, entre São Sebastião e Boiçucanga; a Pássaro Marron atende a região saindo de São Paulo.
Castelhanos, Ilhabela
Em Ilhabela, a maior parte do território é parque estadual fechado de mata. Foto: Marcos Assis, Unsplash
A baía em formato de coração do lado oceânico de Ilhabela, dentro do parque estadual. A viagem é metade da graça: a travessia da ilha por estrada de terra na mata fechada já vale o dia. Lá, mar aberto com ondas, vila caiçara, restaurantes de peixe e a cachoeira do Gato a 2 km de caminhada do canto esquerdo.
Acesso: jipe ou 4x4 pela estrada do parque, ou barco contornando a ilha. Detalhes no guia da praia de Castelhanos.
Bonete, Ilhabela
A recompensa no fim da lista e no fim da trilha: comunidade caiçara de uns 300 moradores, sem estrada, com canoas na areia grossa e mar de tombo que exige respeito. O The Guardian colocou o Bonete entre as dez praias mais bonitas do Brasil. Chegar a pé, depois de 16 km de mata e cachoeira, transforma a praia em conquista. Indo de barco, as lanchas se contratam na parte urbana da ilha, do outro lado.
Acesso: barco saindo da Ponta da Sela ou trilha de 16 km com as cachoeiras da Laje e do Areado no caminho. Tudo no guia da praia do Bonete.
Três avisos de quem mora aqui
Primeiro, o mar oceânico dessa região (Bonete, Castelhanos, Antigos, Aventureiro) costuma ter tombo e correnteza; com criança, prefira Jabaquara, o canto direito do Félix ou a piscina do Cachadaço. Segundo, em Ilhabela leve repelente sempre: o borrachudo é pequeno, mas insiste. Terceiro, os meses de abril, maio, setembro e outubro dão praia vazia e mar limpo; confira o calendário completo na melhor época pra visitar a Costa Verde.
Quem for atrás das mais isoladas sem carro consegue: quase todas dependem de barco e trilha de qualquer jeito, e o guia da Costa Verde sem carro mostra as conexões de ônibus entre as bases. No fim, a areia mais bonita da sua viagem provavelmente vai ser a que deu mais trabalho pra alcançar. Por aqui é assim que funciona.
