Praia de Lopes Mendes: vale a pena?

Vale a pena, sim. Mas a resposta completa tem hora marcada, e é isso que quase nenhum guia conta.
A gente pode falar com propriedade porque dorme na porta dela: o Albatroz, a escuna do nosso grupo, fundeia na enseada do Pouso nas expedições que saem de Paraty, e a tripulação vê Lopes Mendes nos dois estados. Às 8h da manhã, uma faixa de 3 km de areia branca sem uma pegada. Ao meio-dia, a mesma praia dividida com as escunas de bate-volta que chegaram todas juntas. É a mesma praia e são duas experiências que não se parecem. Este guia existe pra você cair na primeira versão.
O que é Lopes Mendes, afinal
Lopes Mendes fica na face da Ilha Grande voltada pro mar aberto, e é o tipo de praia que sustenta a fama: cerca de 3 km de areia fina e firme, daquelas que rangem no pé, água clara, mar com ondas e nenhuma construção. Nenhuma mesmo. Não tem quiosque, não tem restaurante, não tem pousada, não tem poste de luz. A vegetação de restinga chega até a areia e o cenário é o mesmo que os primeiros pescadores da ilha conheciam.
A areia merece um parágrafo próprio: é tão fina e tão clara que quase não esquenta, mesmo com o sol do meio-dia em cima, e range debaixo do pé como neve seca. É um detalhe pequeno que muda o dia inteiro, porque em Lopes Mendes se anda muito: a praia é comprida, a sombra é escassa e o programa é justamente caminhar até sobrar só você e o barulho do mar.
Ela aparece com frequência em listas de praias mais bonitas do Brasil e do mundo, e já escrevemos por que ela disputa esse posto no nosso guia das praias mais bonitas da Ilha Grande. Mas beleza de lista não responde a pergunta do título. Vamos aos poréns.
Os poréns que você precisa saber antes
Primeiro: não tem estrutura nenhuma. O que você não levar, você não tem. Água, comida, protetor e um saco pra trazer seu lixo de volta são obrigatórios, porque na praia não se compra nem uma água de coco. Sombra também é rara; as amendoeiras do canto esquerdo disputadas como vaga de estacionamento em dezembro.
Segundo: o mar é de tombo. Lopes Mendes é praia de mar aberto, com correntes e buracos no fundo mesmo em trechos rasos. É por isso que os surfistas a tratam como point (é a praia mais surfada da ilha, e uma das poucas em que a prancha compensa a carregação pela trilha). Pra quem quer boiar em água parada, o lugar certo é outro: a Lagoa Azul ou a Lagoa Verde, no lado abrigado da ilha. Com criança pequena, redobre a atenção e fique no raso.
Terceiro, e mais importante: ela lota numa janela previsível. As escunas e lanchas de bate-volta saem da Vila do Abraão e de Angra no meio da manhã e despejam todo mundo na mesma faixa de horário, mais ou menos das 11h às 15h. Nesse intervalo, a praia mais preservada da ilha vira uma praia cheia como outra qualquer, só que sem quiosque. Quem julga Lopes Mendes por essa janela volta achando a fama exagerada. Quem chega antes entende tudo.
Como todo mundo chega (e o que esse jeito perde)
O caminho clássico começa na Vila do Abraão, o povoado principal da ilha. De lá, barcos de turismo e táxis boat levam até a Praia do Pouso, a vizinha abrigada: a escuna custa por volta de R$ 70 ida e volta e leva uns 50 minutos; a lancha custa na faixa de R$ 100 e faz o trajeto em uns 25. Nenhum barco atraca em Lopes Mendes, porque o mar aberto não deixa. Do Pouso, uma trilha bem marcada de 1 km cruza o morrinho em 20 a 30 minutos e te entrega na areia.
A Vila do Abraão, de onde saem os táxis boat pro Pouso. Foto: Dave Lonsdale, CC BY 2.0, Wikimedia Commons
Também dá pra ir a pé desde o Abraão, por uma trilha de umas 3 horas que passa pelas praias de Palmas e do Pouso. É bonita, tem subidas honestas e faz parte do circuito que detalhamos no guia de trilhas da Ilha Grande. O problema dos dois jeitos é o mesmo: você chega quando todo mundo chega. O barco das 10h30 e a trilha iniciada depois do café te colocam na praia exatamente na janela cheia.
O jeito que a gente recomenda: amanhecer nela
Aqui o guia tem lado, e a gente assume que o barco é nosso. Na expedição de três noites do Albatroz, que sai de Paraty, a noite anterior termina fundeada depois de uma tarde livre na Vila do Abraão. Na manhã seguinte a escuna segue cedo pro Pouso e desembarca a tripulação de hóspedes antes de as escunas de bate-volta saírem dos portos. Você faz a trilha de 20 minutos com a mata ainda acordando, sai do túnel verde e encontra os 3 km de areia sem ninguém, com o mar quebrando pra plateia nenhuma.
Aí volta pro barco quando a multidão chega, almoça a bordo navegando e passa a tarde na Lagoa Verde. O bate-volta comum vê Lopes Mendes no pior horário dela; quem dorme no mar vê a praia que justifica as listas. É essa inversão de horário, mais que qualquer conforto de bordo, que faz a diferença entre “bonita, mas cheia” e a melhor praia da sua viagem. Os vídeos de como isso acontece na prática estão no Instagram do Albatroz.
A Lagoa Azul, parada do lado abrigado da ilha no mesmo roteiro. Foto: Marcio Sette, CC BY-SA 3.0, Wikimedia Commons
Se for por conta
A informação de serviço, sem julgamento: primeiro você precisa chegar à ilha, e explicamos cada travessia (flex boat de Conceição de Jacareí, barca de Angra e de Mangaratiba, preços e horários) no guia de como chegar em Ilha Grande. Durma na Vila do Abraão na véspera, porque bate-volta do continente até Lopes Mendes é correria com hora de volta no relógio.
No dia, pegue o primeiro táxi boat da manhã pro Pouso, o mais cedo que encontrar no cais. Leve dinheiro vivo (o sinal de celular na ilha falha e a maquininha depende dele), água em dobro, comida pronta e nada de vidro. Se o dia for de ressaca, aceite a sugestão do barqueiro e troque o programa: a ilha tem dezenas de alternativas, e o nosso guia de o que fazer em Ilha Grande organiza as melhores.
Quando ir
De maio a agosto o mar fica mais claro, as trilhas secam e a praia esvazia até nos horários de pico. É a época que a gente prefere. No verão, Lopes Mendes segue linda de manhã cedo, mas a janela cheia fica mais cheia e a chuva de fim de tarde entra no jogo. Feriados prolongados são o teste de paciência máximo: se só puder ir neles, a estratégia do amanhecer deixa de ser um luxo e vira a única forma de ver a praia com espaço.
Um detalhe de expectativa: em dias de ondulação forte, a praia fica por conta dos surfistas e o banho vira molhada de pé. Ainda vale pela caminhada na areia firme, que é longa o bastante pra você achar um pedaço só seu mesmo em dia cheio.
Então: vale a pena?
Vale, e muito, desde que você a visite nos termos dela: sem esperar estrutura, respeitando o mar de tombo e fugindo da janela das escunas. Lopes Mendes não é praia de conveniência, é praia de estado bruto, e é exatamente por isso que ela ainda aparece nas listas ao lado de praias de países inteiros, como contamos no ranking dos destinos mais bonitos entre Rio e São Paulo.
Se a sua viagem for de mochila e vila, durma no Abraão e madrugue. Se puder escolher, faça como a gente faz: durma no mar e deixe a trilha do Pouso te entregar a praia vazia, ainda com cheiro de mata molhada. Depois de ver Lopes Mendes às 8h da manhã, com as praias vizinhas do Aventureiro e Dois Rios ainda na sua lista, você entende por que tem gente que volta pra Ilha Grande todo ano. O próximo passo é um só: escolher a manhã em que você vai estar lá, e defendê-la no roteiro contra qualquer tentação de chegar mais tarde.
