Trilhas da Ilha Grande: as principais, de T1 a T16

Numa ilha sem carros, trilha não é atividade opcional: é o sistema de transporte. Tudo que existe na Ilha Grande fora da Vila do Abraão se alcança a pé ou de barco, e o parque estadual organizou isso num sistema de 16 trilhas numeradas, de T1 a T16, que somadas dão a volta completa na ilha. A gente escreve deste litoral: a escuna do nosso grupo trabalha a baía da Ilha Grande o ano todo, e boa parte da tripulação e dos hóspedes que recebemos já gastou bota nesses caminhos.
Este guia apresenta o mapa mental da ilha, as trilhas que valem seu tempo, a dificuldade sem maquiagem e as regras de segurança que os grupos de resgate gostariam que todo mundo lesse. Ele completa o panorama do que fazer em Ilha Grande e o guia da Vila do Abraão, que é o quilômetro zero de quase tudo aqui.
O mapa mental da ilha em um parágrafo
Imagine a ilha como um triângulo gordo. No canto nordeste, voltada para o continente, fica a Vila do Abraão, a base. O interior é montanha coberta de Mata Atlântica, com o Pico do Papagaio, de 982 metros, quase no centro. A costa leste guarda Lopes Mendes; a costa sul, Dois Rios, Caxadaço e Parnaioca, as selvagens; o extremo sul-oeste, o Aventureiro; e a costa noroeste, virada para o continente, as enseadas calmas de Araçatiba e das lagoas. Toda trilha é uma combinação de sair do Abraão, cruzar montanha e descer em alguma dessas costas.
As trilhas que importam, uma a uma
T1, o circuito do Abraão
A porta de entrada: caminho plano e sinalizado que sai da praça da igreja e junta a praia Preta (20 minutos da vila), as ruínas do Lazareto, hospital de quarentena de 1886 a 1913, o aqueduto de pedra de 1893 e o poção de água doce. Dá para fazer de chinelo bom, com criança, e até com garoa: é a espinha do nosso roteiro de chuva. Vá cedo e o Lazareto é só seu.
O aqueduto de 1893, no fim do circuito T1. Foto: MBelu, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons
T10 e T11, o caminho de Lopes Mendes
A dupla mais caminhada da ilha: a T10 vai do Abraão à praia do Pouso passando por Palmas e pelos mangues, e a T11 é o trecho final, os 20 minutos de morro entre o Pouso e Lopes Mendes. Fazendo tudo a pé são cerca de 3 horas por trecho, com subidas honestas e mata bonita; a maioria encurta pegando barco do Abraão até o Pouso e caminhando só a T11.
O horário vale mais que o esforço: quem chega antes das 10h encontra os 2,5 km de areia quase vazios. É exatamente o desenho da expedição do Albatroz, a escuna do nosso grupo: ela dorme ancorada na baía e desembarca no Pouso logo depois do amanhecer, de modo que a trilha de 20 minutos termina numa Lopes Mendes sem gente, horas antes dos barcos de excursão. É a versão da trilha que a gente recomendaria a um amigo.
A recompensa da T11: Lopes Mendes de manhã. Foto: Rafael Vianna Croffi, CC BY 2.0, Flickr
T13, o Pico do Papagaio
A trilha símbolo da ilha: 982 metros de subida quase contínua até a pedra em forma de bico que se vê de longe. O rito clássico é noturno: saída entre 1h e 2h30 da madrugada, cerca de 3 horas de subida no escuro, e o nascer do sol lá em cima, com a baía inteira acordando embaixo. No horário noturno o acompanhamento de condutor credenciado é obrigatório, e não é burocracia: a trilha é forte, com trechos de raiz e pedra, e no escuro o caminho engana.
Dificuldade real: pesada. São em torno de 6 horas entre subir, esperar o sol e descer, e as pernas sentem por dois dias. Quem não curte madrugada pode subir de dia, quando o condutor não é exigido, sabendo que a vista do amanhecer é outra liga. Leve 2 litros de água por pessoa, lanterna de cabeça, casaco (venta no topo mesmo no verão) e jamais tente com chuva.
T14, a travessia para Dois Rios
Do Abraão até a vila de Dois Rios são uns 7 km pela antiga estrada do presídio, cerca de 2 horas por trecho, subindo a serra e descendo do outro lado. A recompensa é dupla: uma praia larga de mar aberto entre dois rios e as ruínas do presídio Cândido Mendes (1903-1994), com o Museu do Cárcere mantido pela universidade que administra a vila. É caminhada longa mas de piso bom, a mais fácil das travessias. Saia cedo pelo calor e confirme o funcionamento do museu antes.
T15, o desvio para o Caxadaço
Quase no fim da T14 abre-se a T15: 4 km até o Caxadaço, uma praia de bolso protegida por pedras gigantes que formam piscina natural transparente, com snorkel bom no canto direito. A descida final é íngreme e escorregadia, o único trecho técnico. Combina bem com Dois Rios no mesmo dia para quem tem perna; no ranking das praias mais bonitas da ilha explicamos por que vale o desvio.
T16, a Parnaioca
De Dois Rios continua-se para a Parnaioca, praia deserta da costa sul com rio de água doce e as poucas casas do que já foi uma vila caiçara. É trilha selvagem, comprida, que a mata invade com frequência: só para gente experiente, com o dia inteiro, mapa offline e companhia. A sensação de chegar numa praia grande e não encontrar ninguém compensa cada hora.
T9 e a costa oeste, o lado selvagem
A sequência de trilhas da costa oeste (Araçatiba, Provetá, Aventureiro) é o pedaço menos caminhado da ilha. A mais usada é a T9, que liga a vila de Provetá à praia do Aventureiro, dentro da reserva onde a visitação é limitada. São trilhas de comunidade, lindas e pouco sinalizadas: informe-se na vila de partida e não conte com sinal de celular.
Tabela honesta de esforço
| Trilha | Trajeto | Tempo (por trecho) | Nível |
|---|---|---|---|
| T1 | Circuito do Abraão | 1h a 2h no total | Leve |
| T10 + T11 | Abraão, Pouso, Lopes Mendes | ~3h | Moderado |
| T11 | Pouso, Lopes Mendes | 20 min | Leve |
| T13 | Abraão, Pico do Papagaio | ~3h de subida | Pesado |
| T14 | Abraão, Dois Rios | ~2h | Moderado |
| T15 | Dois Rios, Caxadaço | ~1h30 | Moderado, descida técnica |
| T16 | Dois Rios, Parnaioca | meio dia | Pesado, selvagem |
Segurança: o parágrafo que ninguém lê e devia
As regras de quem conhece resgate na ilha: água na conta de 1 litro por pessoa a cada 2 horas de caminhada, e dobre no verão. Saída cedo, sempre, porque a mata escurece uma hora antes do relógio. Trilha longa com chuva, nunca, sem exceção e sem negociação: pedra e raiz molhadas derrubam gente treinada, e os riachos sobem rápido. Sinal de celular some no interior da ilha; avise na pousada para onde vai e baixe o mapa offline. E respeite a placa do parque quando ela disser que a trilha está fechada, porque ela costuma saber algo que você não sabe.
Sobre época: o inverno, de maio a agosto, é a estação das trilhas, com chão seco, ar limpo e menos gente; o verão pede saídas ao amanhecer e aceitação de pancadas à tarde. O calendário mês a mês está na melhor época para visitar Ilha Grande.
Encaixando as trilhas na viagem
Com dois dias na ilha, faça a T1 no dia da chegada e Lopes Mendes no dia seguinte. Com quatro, entram o Papagaio de madrugada e a travessia de Dois Rios. Com uma semana, a costa sul inteira e o Aventureiro entram no jogo; a matemática completa está no artigo sobre quantos dias ficar em Ilha Grande. E quem estiver desenhando uma viagem maior pelo litoral encontra as irmãs dessas trilhas, do Bonete à Bocaina, no guia de trilhas da Costa Verde.
O que fica de uma trilha na Ilha Grande não é a distância: é a sequência de mundos. Você sai de uma vila de rua de areia, atravessa uma floresta que fecha o céu, e o caminho termina sempre em mar. Escolha a primeira pelo seu fôlego, separe a garrafa grande e comece: a T1 está a dez minutos da praça da igreja, e o resto da ilha vem depois dela.
