O que fazer em Ilha Grande quando chove

Chove, e a primeira reação de quem acordou na Vila do Abraão é achar que o dia acabou. Não acabou. A gente escreve isto de dentro do assunto: quem assina este guia toca um hostel em Ilhabela e uma escuna que passa boa parte do ano navegando a baía da Ilha Grande, e já viu dezenas de dias de chuva virarem dias bons. A ilha sem sol não fica pior, fica outra: a mata sobe fumaça, as trilhas curtas ficam vazias e o mar, isso surpreende todo mundo, continua morno.
Este artigo é o plano B pronto: o que fazer, em que ordem, e o que não fazer de jeito nenhum. Se você ainda está montando a viagem, vale ler antes o guia do que fazer em Ilha Grande e o comparativo de melhor época para visitar, porque metade do problema da chuva se resolve escolhendo o mês certo.
Primeiro, entenda que chuva é essa
Na Ilha Grande existem duas chuvas diferentes, e o seu dia depende de saber qual delas está caindo.
A chuva de verão é pancada: arma no início da tarde, despeja meia hora de água e vai embora. Entre dezembro e março ela é quase rotina, e a resposta certa é não cancelar nada, só deslocar o horário. Manhã na água, almoço longo enquanto o céu desaba, fim de tarde de novo lá fora.
A chuva de frente fria é outra conversa: dois ou três dias de céu fechado e garoa, mais comum entre o outono e a primavera. É essa que pede o roteiro deste artigo. A boa notícia é que ela costuma vir com mar calmo dentro da enseada e temperatura amena, não com tempestade.
Em qualquer um dos casos, uma regra vale para a ilha inteira: aqui não existe carro, então todo programa de chuva começa e termina a pé ou de barco. Quem está decidindo quantos dias reservar deve contar com essa possibilidade: a matemática está no artigo sobre quantos dias ficar em Ilha Grande.
Lazareto e aqueduto: o programa que melhora com chuva
O melhor programa de dia fechado da ilha é uma caminhada curta e histórica. Saindo da praça da igreja de São Sebastião, no Abraão, siga pela esquerda da praia: em uns 20 minutos de caminho plano e sinalizado você chega à praia Preta, de areia escura de minerais pesados, e às ruínas do Lazareto.
O Lazareto funcionou de 1886 a 1913 como hospital de quarentena para imigrantes que chegavam ao Brasil, num lugar escolhido ainda no tempo de Dom Pedro II. Sobraram pavilhões tomados pela mata, que se observam de fora (a estrutura está interditada, e respeitar isso não é frescura: o risco de desabamento é real). Um pouco adiante, mata adentro, aparece o aqueduto de 1893, feito de pedra para levar a água represada no morro até os pavilhões. Com garoa, o cenário fica melhor do que com sol: pedra molhada, mata escura, silêncio e quase ninguém no caminho.
No mesmo circuito, chamado de T1 pelo parque estadual, dá para fechar no poção, um poço de água doce onde o rio para antes de descer para o mar. Banho de rio com chuva fina é dos programas mais subestimados da ilha. Leve chinelo de trilha ou tênis velho, capa simples e a certeza de que o celular está num saco plástico.
A vila de café em café
Vila do Abraão vista do mar. Foto: Dave Lonsdale, CC BY 2.0, Wikimedia Commons
A Vila do Abraão tem por volta de 5 mil moradores e uma escala boa para dias lentos: tudo fica a dez minutos de tudo. Em dia de chuva, ela vira um circuito de interiores. Cafés com bolo saindo, restaurantes de peixe com mesa coberta, lojinhas de artesanato, a igreja na praça, o vaivém do cais quando as barcas chegam. Nenhum desses lugares precisa de nome aqui: ande pela rua da praia e pelas duas ou três ruas de trás e você acha os seus.
Duas dicas práticas de quem já rodou a vila encharcado. Primeira: o sinal de celular e a maquininha falham quando o tempo fecha, então saque dinheiro antes ou traga do continente. Segunda: a chuva é o momento de resolver a logística do resto da viagem, reservar a saída de barco de amanhã, conferir o horário da barca de volta (a do Abraão sai às 10h da manhã) e reler o guia da vila para marcar o que ficou faltando.
Trilhas curtas valem, trilhas longas nunca
Aqui mora a linha que separa um dia bom de um resgate. Trilha curta e plana com chuva fraca é ótimo programa: o circuito do Lazareto, descrito acima, e a caminhada para as prainhas do lado leste da enseada seguem seguras com garoa, porque são trechos de 20 a 40 minutos, com saída e chegada na vila.
Trilha longa com chuva é outra história, e a nossa posição é dura: não vá. O Pico do Papagaio, a travessia para Dois Rios e qualquer caminho classificado como selvagem pelo parque ficam fora do plano em dia de chuva, sem exceção. Os motivos são concretos: raiz e pedra viram sabão, os riachos que se cruzam no seco sobem rápido, a mata fechada escurece cedo e o sinal de celular some. Todo ano os bombeiros da ilha buscam gente que subestimou isso. A montanha continua lá amanhã; o guia de trilhas da Ilha Grande ajuda a remontar o plano quando o céu abrir.
Se a frustração for grande porque o dia da trilha era único, use a régua da região: em dias fechados, a Costa Verde inteira funciona assim, e as trilhas da Costa Verde têm alternativas de baixa altitude para esses dias.
O mar continua morno
O dado que ninguém conta para quem visita a ilha pela primeira vez: a temperatura da água não muda porque choveu. O mar da baía da Ilha Grande passa o verão na casa dos 25 graus, e nadar com chuva fina caindo na superfície é uma das melhores cenas que a ilha oferece, justamente porque quase todo mundo desiste e vai para dentro.
Vale o banho na praia do Abraão mesmo (que em dia de sol a gente admite que é mediana, mas de água morna e vazia melhora muito de figura) ou na praia Preta, no caminho do Lazareto. O que muda com a chuva é a visibilidade: perto da foz dos rios a água fica turva por algumas horas, então dia de chuva forte não é dia de máscara e snorkel. Os pontos onde isso compensa, e em que condições, estão no guia de snorkel na Ilha Grande.
Foi navegando que a gente aprendeu a não brigar com esse clima. No Albatroz, a escuna do nosso grupo que sai de Paraty e cruza a baía da Ilha Grande em expedições de três noites, pancada de verão significa todo mundo no convés coberto, café passado, e meia hora depois o sol de volta sobre a Lagoa Verde. Quem dorme na ilha, ou ancorado nela, tem o luxo de esperar a janela boa em vez de correr atrás do bate-volta perdido.
O que evitar em dia de chuva
- Fechar saída de lancha para o outro lado da ilha só porque já estava paga. Mar de chuva com vento é desconforto na certa e, se o tempo piorar, o barco volta no meio. Remarcar costuma ser possível: pergunte cedo no cais.
- Esperar a chuva passar dentro da pousada rolando o celular. A ilha com garoa é caminhável; o dia perdido é escolha, não fatalidade.
- Trilha longa, repetindo porque importa: nem Papagaio, nem Dois Rios, nem travessias. Já dissemos, mas é o erro que mais vemos.
- Deixar para comprar a volta na hora. Em dia feio os horários de barco mudam e a fila do flex boat engrossa. Confirme sua volta de manhã; os detalhes de barcas e lanchas estão no artigo de como chegar em Ilha Grande.
Se a previsão já mostra chuva antes de você ir
Duas leituras resolvem: o artigo de melhor época, para entender o padrão de cada mês, e o de quanto custa viajar para Ilha Grande, porque baixa temporada com risco de chuva é exatamente quando os preços da ilha caem. Tem viajante que faz essa troca de propósito: aceita duas garoas em troca de trilha vazia e cama mais barata. A gente acha um bom negócio.
E se a chuva pegar a viagem inteira, de ponta a ponta, respire: você estará numa ilha sem carros, com mar morno, ruínas do século XIX a vinte minutos a pé e café quente em cada esquina de terra batida. Tem lugar bem pior para ver a água cair. Quando o céu abrir, ainda que por uma manhã, corra para o mar: o roteiro completo está no que fazer em Ilha Grande.
