Trilhas imperdíveis da Costa Verde

Na Costa Verde, trilha não é atividade opcional: é o meio de transporte. Boa parte das melhores praias e cachoeiras do corredor entre Rio e São Paulo simplesmente não tem estrada, e é isso que as mantém do jeito que estão. A gente mora aqui, aponta esses caminhos pra viajante o ano inteiro e ouve os relatos na volta, da bolha no calcanhar ao amanhecer no topo. Quem caminha vê a região que o carro não alcança.
Por isso mesmo, assuma o viés: a lista abaixo tem as oito trilhas que a gente indicaria a um amigo, da caminhada de 20 minutos que qualquer pessoa faz de chinelo (não faça de chinelo) à travessia de 16 km que pede preparo físico de verdade e saída cedo. Pra cada uma: dificuldade honesta, tempo real e o que você ganha no fim. A visão geral da região, com transporte e bases de apoio, está no nosso guia definitivo da Costa Verde.
Um aviso antes: os tempos abaixo são de caminhante mediano com paradas de foto. Na chuva, tudo demora mais e escorrega mais. As trilhas da região secam de verdade entre maio e agosto, o melhor período pra caminhar, como explica o guia da melhor época pra visitar a Costa Verde.
Pico do Papagaio, Ilha Grande
A trilha mais dura e mais recompensadora da região. São cerca de 6 km de subida contínua em mata fechada até o topo de 982 metros, com trechos de inclinação forte; contando ida e volta, o programa leva em torno de 6 horas. A tradição local é sair da Vila do Abraão de madrugada, por volta das 2h ou 3h, pra assistir ao amanhecer lá de cima, com a baía da Ilha Grande inteira acordando abaixo de você. Nesse horário (entre 17h e 7h), o parque exige acompanhamento de guia ou condutor credenciado; de dia, dá pra ir por conta.
Dificuldade: pesada. Tempo: 5 a 7 horas ida e volta. O que se vê: a vista mais ampla da Costa Verde fluminense, de preferência tingida de laranja.
Travessia do Bonete, Ilhabela
Os 16 km que separam a Ponta da Sela, onde termina o asfalto de Ilhabela, da vila caiçara do Bonete. O caminho sobe e desce dentro do Parque Estadual, cruza rios e passa pelas cachoeiras da Laje e do Areado, que funcionam como paradas estratégicas de banho. No fim, uma comunidade de 300 moradores sem estrada e uma praia que o The Guardian listou entre as dez mais bonitas do Brasil. Muita gente dorme lá e volta de barco no dia seguinte, o que a gente recomenda. Na véspera, o comum é dormir na região central da ilha e madrugar: de carro ou táxi se chega à Ponta da Sela, onde o asfalto acaba e a trilha começa.
Dificuldade: moderada a pesada, mais pela distância que pela técnica. Tempo: 4 a 6 horas por trecho. O que se vê: Mata Atlântica crua, cachoeiras e a chegada mais cinematográfica da ilha. Roteiro completo na página da trilha do Bonete.
A mata fechada do Parque Estadual de Ilhabela, cenário da travessia do Bonete. Foto: Boris Karpuk, CC BY-SA 3.0, Wikimedia Commons
Pão de Açúcar do Mamanguá, Paraty
Curta e íngreme: 1,5 km de subida que a maioria vence em 1h a 1h30, com cordas fixas ajudando nos trechos mais verticais. O prêmio é desproporcional ao esforço: do topo, a 425 metros, você olha de cima o Saco do Mamanguá inteiro, o braço de mar de 8 km que ganhou o apelido de fiorde tropical, com a baía de Ilha Grande ao fundo. Sobre a logística, o nosso conselho é assumido: a melhor forma de fazer essa trilha é acordar aos pés dela. O Albatroz, barco-hostel do nosso grupo, sai de Paraty e passa a noite fundeado no Mamanguá; você toma café olhando o morro que vai subir e começa a caminhada sem lancha marcada encurtando a manhã. Por conta, a trilha começa na Praia do Cruzeiro, acessível só de barco, com lanchas contratadas em Paraty ou no Paraty-Mirim.
Dificuldade: moderada, com trechos de mão na pedra. Tempo: 3 a 4 horas ida e volta, fora o barco. O que se vê: a vista mais fotografada de Paraty.
Trilha do Sono e Antigos, Paraty
O clássico mochileiro do litoral sul fluminense. De Laranjeiras (onde chega o ônibus da Colitur saindo de Paraty), são uns 3 km de trilha com subidas e trechos de lama até a Praia do Sono, uma vila caiçara sem estrada; conte 1h a 1h30. Quem quer mais cruza o rio no fim do Sono e segue mais 30 minutos, com uma escada íngreme no começo, até a praia de Antigos, deserta e de areia dourada, e mais 10 minutos até Antiguinhos.
Dificuldade: moderada. Tempo: meio dia pra ir e voltar com calma; muita gente volta de barco em 10 minutos. O que se vê: o litoral selvagem de Paraty em sequência.
Piscina natural do Cachadaço, Trindade
A trilha sai do canto da Praia do Cachadaço, em Trindade, e serpenteia uns 30 minutos por mata e pedras até a piscina natural: um aquário de água calma protegido do mar aberto por blocos gigantes de granito, onde a água raramente passa da cintura. Leve máscara de snorkel, os peixes chegam perto. De manhã cedo, antes dos barcos de turismo, o lugar é outro.
Dificuldade: leve, com raízes e pedras no caminho. Tempo: 30 minutos por trecho. O que se vê: a melhor água pra flutuar da região.
Trilhas de Castelhanos, Ilhabela
Castelhanos rende duas caminhadas distintas. A principal é a trilha da cachoeira do Gato: 2 km autoguiados e fáceis a partir do canto esquerdo da praia, terminando numa queda alta dentro do parque, de graça. A outra é a própria estrada de terra de 17 km que cruza a ilha, que ciclistas e caminhantes fortes encaram como travessia; a maioria, com bom senso, vai de jipe e caminha só lá dentro.
Dificuldade: leve (cachoeira do Gato). Tempo: 1h30 ida e volta a partir da praia. O que se vê: a baía em formato de coração e uma das cachoeiras mais bonitas da ilha. Contexto no guia da praia de Castelhanos.
Trilha de Lopes Mendes, Ilha Grande
A porta de entrada do trekking na Costa Verde: 20 minutos de caminhada por dentro da mata ligando a Praia do Pouso à praia de Lopes Mendes. Sobe um morrinho, desce do outro lado e pronto: 2,5 km de areia branca sem construção nenhuma. É curta, mas tem raiz e pedra; calce um tênis. E tem hora certa, na nossa opinião de casa: dormindo no mar na véspera, do jeito da expedição do Albatroz, você desembarca na Praia do Pouso de manhã cedo e cruza a mata antes de o movimento do dia começar, com a praia do outro lado ainda por estrear. Por conta, os táxis boat do Abraão desembarcam na mesma Praia do Pouso ao longo do dia.
Dificuldade: leve. Tempo: 20 a 30 minutos por trecho. O que se vê: uma das praias mais bonitas do mundo aparecendo entre as folhas. Quem quiser esticar pode voltar ao Abraão por trilha, num caminho bem mais longo dentro do circuito de trilhas da ilha, descrito no guia de o que fazer em Ilha Grande.
Trilha da Praia do Sul, Ilha Anchieta (Ubatuba)
Dentro do parque estadual da Ilha Anchieta, aonde se chega de escuna a partir do Saco da Ribeira, a trilha da Praia do Sul percorre cerca de 1,1 km desde a Praia das Palmas, passando por um mirante de biodiversidade, até uma praia isolada de água verde, ótima pra mergulho livre. Por ser unidade de conservação, a caminhada é feita com monitor ambiental credenciado. No caminho de volta, as ruínas do presídio desativado completam o passeio.
Dificuldade: leve a moderada. Tempo: cerca de 1 hora por trecho, dentro de um passeio de dia inteiro. O que se vê: fundo do mar limpo, mata regenerada e história.
Pra fechar a mochila
Três itens resolvem 90% dos problemas nas trilhas daqui: tênis com sola boa (raiz molhada é sabão), água de sobra e repelente, principalmente em Ilhabela, onde o borrachudo mora nas beiras de rio. Comece cedo sempre: o tempo na Serra do Mar muda rápido depois do meio-dia.
E se a sua motivação é o que está no fim do caminho, temos os dois complementos naturais deste guia: as praias imperdíveis da Costa Verde, quase todas no fim de uma trilha destas, e as cachoeiras imperdíveis da Costa Verde, pra quem prefere água doce no fim da caminhada. Nos dois casos, a conclusão é a mesma a que a gente chegou morando aqui: o melhor da Costa Verde continua sendo a pé.
