Hostel da VilaGuia de Experiências

O roteiro perfeito de 10 dias pela Costa Verde

Publicado em 10 de julho de 2026 · 9 min de leitura

Saco do Mamanguá visto do alto da trilha do Pão de Açúcar, com quaresmeiras floridas em primeiro plano
O Saco do Mamanguá visto da trilha do Pão de Açúcar. Foto: Pedro Gabriel Maciel, CC BY-SA 3.0, Wikimedia Commons

Quando um hóspede pergunta na nossa recepção, em Ilhabela, quanto tempo a Costa Verde merece, a resposta da casa é dez dias. Uma semana atravessa a região; dez dias permitem morar um pouco em cada parada. É a diferença entre ver Lopes Mendes e ter uma manhã inteira de mar sem olhar o relógio, entre fotografar o Saco do Mamanguá de longe e remar dentro dele.

Blogs que a gente respeita chegaram à mesma conta por caminhos diferentes: o Volto Logo montou seus 10 dias concentrando tudo em Ilha Grande, Paraty e Ubatuba, com quatro noites só na ilha. O nosso desenho abre mão de um pouco dessa profundidade pra incluir o litoral norte de São Paulo até Ilhabela, porque achamos que a travessia completa, de estado a estado, é o que faz dessa viagem uma viagem só. Quem preferir cortar Ilhabela e devolver os dias à Ilha Grande não vai ouvir reclamação nossa.

O roteiro está organizado em cinco blocos, no sentido Rio a São Paulo. Antes de descer aos detalhes, vale ler o guia definitivo da Costa Verde pra entender o mapa geral.

Bloco 1: Ilha Grande, dias 1 a 3 (três noites)

Uma posição de casa antes do passo a passo, porque este guia tem dono e o dono navega: pro começo fluminense da viagem, o jeito que a gente recomenda não passa por flex boat. A Combinada de cinco noites do Albatroz, a escuna de 23 metros do nosso grupo, sai de Paraty e costura o essencial dos blocos 1 e 2 sem trocar de cama: dois dias de Ilha Grande dormindo a bordo (Lagoa Azul, tarde na Vila do Abraão e o desembarque cedo na Praia do Pouso, com Lopes Mendes ainda vazia), um dia livre em Paraty com o barco atracado na marina e a noite final fundeado no Saco do Mamanguá, com luau de fogueira na praia. O contraste que nos convenceu: por conta, o horário da barca manda no seu dia e o bate-volta chega em Lopes Mendes junto com todo mundo; a bordo, a praia aparece antes do público dela e a mala não abre nem fecha. Quem preferir montar tudo por conta segue o dia a dia abaixo, desenhado exatamente pra isso.

Dia 1. Saída cedo do Rio, chegada a Conceição de Jacareí no fim da manhã e flex boat pra Vila do Abraão (20 a 25 minutos, R$ 45 a 150 por trecho). A alternativa econômica é a barca de Mangaratiba, R$ 20,50, mas ela tem pouquíssimos horários e amarra o seu dia; a gente só recomenda pra quem já está com o planejamento fechado. Tarde de chegada: Praia do Abraãozinho, a meia hora de caminhada do vilarejo, e cerveja no cais vendo os barcos voltarem.

Dia 2. Lopes Mendes sem pressa. Táxi-boat até a Praia do Pouso e 20 minutos de trilha, ou a caminhada longa de umas 3 horas desde o Abraão pra quem gosta de trilha. São 2,5 km de areia praticamente sem estrutura, então leve o que for comer e beber.

Dia 3. A noite extra em relação ao roteiro de uma semana compra este dia, e ele aceita duas personalidades. A aquática: o passeio de barco clássico da ilha (a chamada Meia Volta), com paradas em pontos como a Lagoa Azul, de água transparente e peixe listrado em volta do tornozelo. A terrestre: o Pico do Papagaio, 982 metros de subida forte dentro da mata, com a baía da Ilha Grande inteira lá embaixo. Os dois programas aparecem detalhados no nosso guia de o que fazer em Ilha Grande.

Bloco 2: Paraty, dias 4 e 5 (duas noites)

Dia 4. Travessia de volta ao continente e estrada até Paraty: 1h30 de carro por um dos trechos mais bonitos da Rio-Santos, ou Colitur L101 a partir de Angra (R$ 27,50, umas 2 horas). Reserve o fim da tarde e a noite pro centro histórico, quando os grupos de bate-e-volta somem e o casario colonial fica em paz. Nas luas cheia e nova, a maré alta entra pelas ruas de pedra, e vale organizar o jantar em volta do horário dela.

Dia 5. O dia do Saco do Mamanguá, o fiorde tropical da foto lá de cima: um braço de mar de 8 km cercado de serra, sem estrada, com comunidades caiçaras nas praias. E aqui vale repetir o lado que assumimos no bloco 1: pra gente, o Mamanguá se conhece de verdade dormindo dentro dele, que é o que a expedição faz na noite final, com o barco fundeado na água parada, o luau de fogueira na praia aos pés do Pão de Açúcar e o kayak transparente descendo do convés antes do café. Pra quem montou o roteiro por conta, a visita avulsa se resolve assim: em meio dia dá pra fazer o passeio de lancha ou canoa saindo de Paraty ou do Paraty-Mirim, com banho em água que parece de lago, e quem tiver perna sobrando sobe a trilha do Pão de Açúcar do Mamanguá, curta e íngreme, pra ver o fiorde de cima. De volta a Paraty, a tarde fecha com o passeio de escuna (por volta de R$ 60) ou com as igrejas e galerias que ficaram devendo.

Bloco 3: Trindade, dia 6 (uma noite)

Dia 6. No roteiro de 7 dias, Trindade é um meio dia apressado. Aqui ela ganha o que merece: um pernoite. Ônibus da Colitur desde Paraty (uns R$ 5, 40 minutos, 27 km) e dia inteiro na enseada: as quatro praias, o mar aberto da Praia Brava pra quem surfa, e no fim da tarde a piscina natural do Cachadaço, quando as excursões já foram embora e a água fica só sua.

Dormir na vila é a parte que quase ninguém faz. Trindade à noite volta a ser o povoado caiçara que sempre foi, com fogueira na areia no inverno e um silêncio que não combina com a lotação do meio-dia. É o tipo de experiência que a gente lista entre os lugares mais autênticos da Costa Verde.

Praia do Cachadaço em Trindade, com pedras arredondadas e mata fechada em volta A praia do Cachadaço, em Trindade. Foto: Eduardo Gabão, CC BY-SA 3.0, Wikimedia Commons

Bloco 4: Ubatuba, dia 7 (uma noite)

Dia 7. Manhã de despedida no Cachadaço e estrada pra Ubatuba. Quem está de carro pode parar na Vila de Picinguaba, praticamente na divisa dos estados, de onde saem barcos pra Ilha das Couves, uma das águas mais claras do litoral paulista; o Volto Logo usa essa parada como transição no roteiro deles, e a gente assina embaixo. Sem carro, o trecho Paraty-Ubatuba é o gargalo da viagem: poucos ônibus por dia, horários que mudam, confirmação obrigatória com antecedência. O nosso guia da Costa Verde sem carro explica como resolver.

Em Ubatuba, a tarde fica entre a base do Projeto Tamar, aberta desde 1991, e uma praia de verdade: Itamambuca pra quem quer onda, o canto do Lázaro pra quem quer mar manso. São mais de 100 praias no município; um dia é só a apresentação.

Bloco 5: Ilhabela, dias 8 a 10 (duas noites)

Dia 8. Estrada até São Sebastião e balsa: 20 minutos de travessia, grátis pra pedestre, R$ 19 a 28,50 pra carro, saídas a cada meia hora. Tarde de chegada no lado do canal: orla, praias urbanas e o pôr do sol de frente pro continente, que em Ilhabela é programa diário. Transparência de anfitrião: é nessa ilha que funciona o Hostel da Vila, o eco lodge do nosso grupo, no centro histórico desde 2016, entre a mata e o mar; quando o sol termina de descer, o Floresta Bar acende no meio dos 8.000 m² de Mata Atlântica.

Dia 9. O dia extra que este roteiro dá a Ilhabela vai pro lado selvagem. A opção clássica é a travessia de 4x4 pela estrada de terra do parque estadual até a Praia de Castelhanos, no mar aberto, combinando praia grande, vila caiçara e mirantes no caminho. A alternativa mais tranquila: manhã de cachoeira (a da Toca tem poços de banho e um alambique vizinho) e tarde nas praias do sul. Repelente não é sugestão, é equipamento: o borrachudo é o morador mais antigo da ilha. Entre maio e agosto, olhe o canal com atenção: as baleias-jubarte passam por ali e dá pra avistar da costa.

Dia 10. Manhã de praia ou de compras na Vila, balsa e subida da serra: São Paulo fica a umas 4 horas. Se o voo ou o compromisso permitirem, estique até o meio da tarde. Ninguém nunca se arrependeu de mais duas horas de Ilhabela.

Os erros que a gente vê todo verão

Vale nomear os tropeços clássicos desse formato de viagem, porque todos têm prevenção barata.

O primeiro é chegar na Ilha Grande sem reserva em alta temporada. A oferta de camas no Abraão é limitada de verdade, e quem desembarca sem nada fechado em janeiro passa a primeira hora de ilha batendo de porta em porta com a mochila nas costas.

O segundo é subestimar as travessias. Flex boat com mar mexido atrasa ou cancela, e a barca tem horário contado: quem marca compromisso pro mesmo dia da travessia aprende essa lição no cais. Deixe sempre uma gordura de meio dia entre a ilha e o próximo trecho.

O terceiro é o caixa eletrônico imaginário. Trindade, Mamanguá e boa parte das praias da Ilha Grande funcionam com sinal de celular fraco, e a maquininha depende dele. Saque dinheiro em Paraty e em Ubatuba e viaje com espécie no bolso.

O quarto é querer emendar o dia 10 com compromisso à noite em São Paulo. A balsa, a serra e o trânsito da chegada não combinam com hora marcada.

As contas e os ajustes

Somando transporte, hospedagem simples, comida e um passeio de barco por parada, dez dias na Costa Verde cabem na faixa de R$ 150 a 250 por dia no perfil mochileiro; os três perfis de orçamento estão calculados no artigo quanto custa viajar pela Costa Verde.

Dois ajustes comuns. Quem tem nove dias corta o pernoite em Trindade e a visita vira meio dia, como no roteiro de 7 dias. Quem tem mais tempo descobre que a régua sobe rápido: com cinco dias a mais entram o Aventureiro e Dois Rios na Ilha Grande, o Bonete em Ilhabela e até um dia inteiro de rede sem culpa. Esse é o roteiro de 15 dias pela Costa Verde, a versão pra quem pode transformar a travessia em temporada.