O roteiro perfeito de 15 dias pela Costa Verde

Existe uma Costa Verde que não cabe em uma semana. É a do Aventureiro, a praia do coqueiro deitado onde só se chega de barco pelo mar aberto. A das ruínas do presídio em Dois Rios. A do Bonete, a vila de Ilhabela que fica a 16 km de trilha do asfalto mais próximo. Nenhum desses lugares entra num roteiro apertado, porque todos cobram a mesma moeda: tempo.
Quinze dias pagam essa conta. A gente escreve da ponta paulista desse corredor, em Ilhabela, onde as travessias longas costumam terminar, e este é o desenho que indicamos pra quem pode ficar. O site Quanto Custa Viajar recomenda 17 dias pra rodar o corredor inteiro com calma, e roteiros de 10 dias como o do Volto Logo já mostram que só o triângulo Ilha Grande, Paraty e Ubatuba consome uma semana e meia sem esforço. O plano abaixo fica no meio do caminho: a travessia completa do Rio a São Paulo, com as joias difíceis incluídas e, luxo dos luxos, um dia inteiro de descanso.
A lógica geral está no guia definitivo da Costa Verde. Aqui vai o dia a dia.
Ilha Grande sem pressa: dias 1 a 5
Antes do dia a dia, o lado da casa, dito sem rodeio: pra gente, o jeito certo de fazer o miolo fluminense deste roteiro é pelo mar. A Combinada de cinco noites do Albatroz, a escuna de 23 metros do nosso grupo, junta Ilha Grande, a Praia Grande da Cajaíba e o Saco do Mamanguá numa expedição só saindo de Paraty: Lagoa Azul e Vila do Abraão dormindo a bordo, Lopes Mendes alcançada cedo pela Praia do Pouso antes das escunas de bate-volta, um dia livre em Paraty com o barco na marina e o luau de fogueira na noite do fiorde. Num roteiro que pede sete mudanças de hospedagem, são cinco noites com a mesma cama e o chef resolvendo a cozinha. Os dias fluminenses que sobram vão pras joias que só o tempo compra: Dois Rios, o Aventureiro, o pernoite em Trindade. O passo a passo abaixo é a versão por conta, com preços e horários que valem pra qualquer um dos dois caminhos.
Dia 1. Rio, Conceição de Jacareí, flex boat (20 a 25 minutos, R$ 45 a 150), Vila do Abraão. Tarde de chegada na Praia do Abraãozinho e primeiro jantar nas ruas de terra do vilarejo, que tem uns 5 mil moradores e nenhum carro.
Dia 2. Lopes Mendes o dia inteiro, de táxi-boat até o Pouso e 20 minutos de trilha. Com quatro noites na ilha, você pode esperar o dia de céu mais limpo pra este programa, um privilégio que roteiro curto não dá.
Dia 3. Dois Rios, a pé ou de bicicleta pelos cerca de 8 km de estrada de terra que sobem e descem a serra desde o Abraão. Lá embaixo esperam uma praia entre dois rios (daí o nome) e as ruínas do presídio que funcionou na ilha até 1994, com um pequeno museu contando essa história. É o dia mais estranho e mais memorável da ilha: mata, mar e memória carcerária no mesmo quadro.
Dia 4. O Aventureiro, no lado oceânico. A visitação é controlada e o acesso é por barco, em passeios que contornam a costa sul da ilha. A recompensa é a praia da foto de capa deste artigo: o coqueiro deitado, a areia clara, uma vila caiçara onde a hospedagem é camping ou quarto simples na casa de morador. Quem quiser dormir lá pode reorganizar a semana e trocar uma noite do Abraão por uma noite no Aventureiro; é a versão mais crua e mais bonita da Ilha Grande. Os detalhes práticos estão no guia de o que fazer em Ilha Grande.
Dia 5. Manhã livre (o Pico do Papagaio, de 982 metros, fica pra quem trocar a manhã livre por suor), travessia de volta e estrada pra Paraty. Fim de tarde no centro histórico, com os lampiões acesos.
Paraty por dentro: dias 6 a 9
Dia 6. Dia inteiro no centro histórico e arredores: as igrejas que dividiam a cidade colonial por classe social, o Forte Defensor Perpétuo, os ateliês. Paraty é Patrimônio Mundial da UNESCO junto com a Ilha Grande desde 2019, o primeiro sítio do Brasil reconhecido por cultura e natureza ao mesmo tempo, e este dia explica o lado cultura.
Dia 7. O Saco do Mamanguá com o tempo que ele pede: o dia inteiro. Quem embarcou na Combinada chega aqui pelo mar e dorme dentro do fiorde, com a fogueira do luau acesa na praia aos pés do Pão de Açúcar, a mesma montanha que você subiu de tarde; acordar nessa água parada é boa parte do motivo de a gente ter tomado partido lá no começo do roteiro. Por conta, o fiorde tropical de 8 km rende manhã de canoa ou lancha entre as praias caiçaras, almoço na casa de uma família local e, à tarde, a subida do Pão de Açúcar do Mamanguá pra ver a fenda de água verde por cima. Quem quiser transformar em pernoite encontra campings e quartos de morador nas praias do fiorde, e acorda num lugar sem estrada, sem farmácia e sem pressa.
Dia 8. O mar de Paraty na escuna clássica do cais (por volta de R$ 60) ou, pra quem prefere história, o Caminho do Ouro: a trilha calçada no século XVIII por onde o ouro de Minas descia a serra até o porto.
Dia 9. Mudança curta: 27 km até Trindade, de Colitur (uns R$ 5) ou carro. Praias, mar aberto e fim de tarde na piscina natural do Cachadaço, já sem as excursões. Noite na vila, que depois das 18h devolve o clima de povoado que o movimento do dia esconde.
O Cachadaço, em Trindade, melhor no fim do dia. Foto: Eduardo Gabão, CC BY-SA 3.0, Wikimedia Commons
A divisa e Ubatuba: dias 10 e 11
Dia 10. De manhã, a última trilha fluminense: o costão que liga as praias de Trindade. Depois do almoço, estrada pra Ubatuba com parada na Vila de Picinguaba, na divisa, de onde saem barcos pra Ilha das Couves. Sem carro, lembre do aviso que vale pra toda a região: o trecho Paraty-Ubatuba tem poucos ônibus por dia, e o planejamento das conexões está no guia da Costa Verde sem carro. Noite em Ubatuba.
Dia 11. Dia cheio em Ubatuba, o que quase nenhum roteiro de travessia oferece. De manhã, barco do Saco da Ribeira pra Ilha Anchieta, o parque estadual com ruínas de presídio e mar de aquário. À tarde, Projeto Tamar (funciona desde 1991) e uma praia à escolha entre as mais de 100 do município: Itamambuca pro surfe, Lázaro pra flutuar.
Ilhabela como ela merece: dias 12 a 15
Dia 12. Estrada até São Sebastião, balsa de 20 minutos (carro R$ 19 em dia útil, R$ 28,50 no fim de semana; pedestre não paga) e chegada em Ilhabela. Tarde leve: orla, praias do canal, pôr do sol de frente pro continente. Vale a declaração de interesse: o Hostel da Vila, eco lodge que assina este blog, fica no centro histórico de Ilhabela desde 2016, com 8.000 m² de Mata Atlântica, acomodações fora do comum (domo, casa na árvore, kombi) e uma piscina aquecida a 32°C que faz outro sentido pra quem carrega onze dias de estrada nas pernas.
Dia 13. A travessia de 4x4 até a Praia de Castelhanos, cruzando o parque estadual que cobre a maior parte da ilha, ou um dia de cachoeiras pra quem já está com overdose de areia. Entre maio e agosto, atenção ao canal: é época de baleia-jubarte passando, com pico em junho e julho.
Dia 14. O Bonete. A vila caiçara de uns 300 moradores no sul da ilha só tem dois acessos: barco (dependente do mar, que ali é aberto) ou a trilha de 16 km que consome quase um dia de caminhada, com cachoeiras no percurso pra quebrar o esforço em capítulos. A combinação mais comum é ir de barco e voltar de barco no mesmo dia; a mais bonita é ir a pé e voltar de barco no dia seguinte, dormindo na vila. Se o mar não deixar (acontece), o dia vira reserva técnica pra qualquer pendência da ilha.
Dia 15. O dia de descanso, e a gente insiste que ele seja levado a sério: é o dia de entrar no tempo da ilha. Rede, praia perto da pousada, um almoço longo. Catorze dias de travessia pedem um dia de nada antes da balsa e das 4 horas de estrada até São Paulo. Se precisar cortar algo do roteiro, corte outra coisa.
Ajustes finos
Este roteiro assume disposição pra mudar de cama sete vezes. Quem prefere menos mudança pode fundir Trindade em Paraty (voltando a dormir na cidade) e esticar Ilhabela. Quem tem 12 dias corta o dia de descanso e um dia de Ubatuba e chega perto do nosso roteiro de 10 dias, que é a versão sem as joias difíceis.
Sobre dinheiro: a estrutura de custos é a mesma da viagem curta (cama de hostel entre R$ 46 e 165, pousadas a partir de uns R$ 200, passeios de barco de R$ 49 a 109), só que multiplicada por mais dias; as contas completas estão em quanto custa viajar pela Costa Verde. E sobre época: quinze dias aumentam a chance de pegar chuva em qualquer estação, então mire nos meses estáveis de abril, maio, setembro e outubro, comparados mês a mês no guia da melhor época. Aventureiro, Mamanguá e Bonete dependem de barco e de mar bom: quanto mais folga o calendário tiver, mais a ilha decide a seu favor.
Um aviso final sobre a ordem dos dias: ela não é sagrada. Este roteiro foi desenhado pra que os programas dependentes de mar (Aventureiro, Mamanguá, Bonete, Ilha Anchieta) tenham vizinhos flexíveis, então troque dias de lugar conforme a previsão. Mar ruim no dia 4? Suba o Papagaio e deixe o Aventureiro pro dia 5. Chuva no dia 7? O Mamanguá troca de lugar com a escuna do dia 8 sem dor. Quem viaja quinze dias tem o luxo que o viajante de uma semana não tem: esperar o tempo abrir. Use.
