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Os lugares que estrangeiros ainda não descobriram na Costa Verde

Publicado em 10 de julho de 2026 · 7 min de leitura

Praia do Aventureiro, na Ilha Grande, com areia clara e morros verdes ao fundo
Praia do Aventureiro, Ilha Grande. Foto: Renata Paganotto, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons

Existe uma rota que todo mochileiro estrangeiro faz no sudeste do Brasil, quase sem variação: Rio de Janeiro, Ilha Grande, Paraty. Dali, a maioria segue pra São Paulo capital, pras Cataratas ou pro sul, e a Costa Verde some do mapa deles exatamente na metade. A gente recebe viajante nesse litoral há dez anos e vê a fronteira invisível funcionar todo dia: no Abraão e no centro histórico de Paraty se ouve inglês, francês e espanhol em qualquer mesa; cruzou a divisa de São Paulo, o sotaque vira paulistano e o cardápio volta a ter um idioma só.

Nada contra o circuito clássico. Ilha Grande e Paraty formam Patrimônio Mundial da UNESCO desde 2019, o primeiro sítio do Brasil reconhecido por cultura e natureza ao mesmo tempo, e merecem cada estrela dos guias internacionais. A questão é outra: o corredor de 294 km que a gente apresenta no guia definitivo da Costa Verde continua depois de Paraty, e a metade paulista, mais alguns cantos escondidos da própria metade fluminense, segue sendo território de viajante brasileiro. Pra quem gosta de chegar antes da multidão internacional, este artigo é o mapa.

Ilhabela, a ilha que ainda fala português

É curioso: Ilhabela é a maior ilha marítima do país, tem mais de 40 praias e um parque estadual cobrindo quase todo o território, e mesmo assim quase não aparece nos roteiros gringos. A explicação é logística. Os guias internacionais desenham o Brasil a partir do Rio, e Ilhabela fica do lado de São Paulo, a 4h30 de ônibus da capital mais 20 minutos de balsa. Pro estrangeiro que já vai embora depois de Paraty, é longe. Pro brasileiro, é o fim de semana.

O resultado: você atravessa a balsa e ouve português na fila do açaí, na trilha e no barco. A exceção dura uma semana por ano, a Semana Internacional de Vela, que em 2026 vai de 24 de julho a 1º de agosto, quando velejadores do mundo inteiro tomam o canal e a ilha vira torre de Babel. No resto do calendário, Ilhabela é o maior destino da Costa Verde que os estrangeiros ainda não incorporaram à rota. Falamos de dentro: quem escreve toca o Hostel da Vila, eco lodge no centro histórico da ilha, e fora da semana de regata o hóspede estrangeiro é exceção na recepção.

Pôr do sol alaranjado sobre o canal de São Sebastião visto de Ilhabela Canal de São Sebastião no fim do dia. Foto: Vitor Camilo, Unsplash

Jabaquara e Castelhanos, os fins de estrada de Ilhabela

Dentro de Ilhabela, dois lugares filtram ainda mais. O Jabaquara fica no extremo norte, a uns 22 km da balsa, e os últimos 8 km são estrada de terra que termina num mirante e numa descida a pé até a praia. Não chega ônibus, não chega excursão grande. Chega quem foi de carro, de barco ou pedalando, e encontra uma enseada de areia clara com um rio desaguando numa lagoa. Dia de semana fora de temporada, é comum ter a praia quase inteira pra você.

Castelhanos, do lado oceânico, é o outro fim de estrada: só se chega de 4x4, cruzando o parque estadual pela travessia de terra, ou de barco contornando a ilha. A praia tem forma de coração quando vista do alto, ondas de mar aberto e uma comunidade de pescadores que serve almoço. É o passeio mais clássico da ilha entre brasileiros e permanece praticamente desconhecido lá fora. E vale lembrar o detalhe que protege as duas: o borrachudo. Leve repelente e reaplique sem preguiça, que o mosquitinho já expulsou muito visitante desavisado.

Dois Rios, o vazio dentro do destino mais gringo

Aqui está o paradoxo mais bonito da lista: um lugar quase sem estrangeiros dentro da ilha mais estrangeira do Brasil. Dois Rios fica do lado oceânico da Ilha Grande, a cerca de 9 km do Abraão por uma trilha larga que sobe e desce a serra, umas duas a três horas de caminhada. A distância faz a triagem: a massa que lota Lopes Mendes raramente aparece por lá.

Quem vai encontra uma praia entre dois rios, como o nome entrega, e as marcas do presídio Cândido Mendes, que funcionou ali até 1994 e abrigou presos como Graciliano Ramos, que transformou a experiência no livro Memórias do Cárcere. As instalações foram demolidas, e no lugar funciona hoje o Museu do Cárcere, que guarda fotos, documentos e objetos da época. É um passeio diferente de tudo na região: metade natureza bruta, metade história pesada do Brasil, com uma vila minúscula e silenciosa no meio.

Vista do alto do Pico do Papagaio, na Ilha Grande, com mar e morros ao fundo O interior da Ilha Grande visto do Pico do Papagaio: é dessa serra que a trilha desce pra Dois Rios. Foto: MBelu, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons

Mamanguá, o fiorde sem placa

O Saco do Mamanguá fica a poucos quilômetros de Paraty em linha reta e mesmo assim escapa do radar internacional. Não tem placa na estrada, não tem píer de escuna, não tem pacote de meio dia. É uma língua de mar de uns 8 km cercada de morros, habitada por comunidades caiçaras. E sobre como conhecê-lo a gente não fica em cima do muro: o Mamanguá se conhece dormindo nele, e o jeito que recomendamos é a bordo do Albatroz, a escuna de 23 metros do nosso grupo, que ancora dentro do fiorde nas expedições saindo de Paraty. A parte que os hóspedes mais contam depois é a noite: jantar do chef no convés, os morros escurecendo em volta e nenhuma luz de cidade no horizonte. A visita avulsa, de barco ou caiaque num dia só, fica como alternativa pra quem não puder pernoitar: dá pra subir a trilha do Pão de Açúcar e ver o fiorde inteiro lá de cima, só que a volta acontece justamente na hora em que o lugar começa a ficar melhor.

Os estrangeiros que fazem escuna em Paraty passam a um passeio de distância disso sem saber. Melhor pra quem sabe.

Ubatuba do sul e as praias de São Sebastião

A metade paulista da Costa Verde é praticamente toda de público brasileiro, mas dois trechos merecem menção. O primeiro é a região sul de Ubatuba, perto do Saco da Ribeira, onde praias como o Lázaro e Domingas Dias juntam mar calmo e mata na areia; nos dias úteis fora do verão, voltam a ser praias de bairro. O segundo é o litoral de São Sebastião, na costa continental em frente a Ilhabela: uma sequência de praias que os paulistas disputam no verão e os estrangeiros simplesmente nunca viram, incluindo Maresias, que formou o bicampeão mundial de surfe Gabriel Medina.

São bases boas pra quem viaja de carro pela Rio-Santos e quer dormir fora dos polos principais. No roteiro de carro pela Costa Verde a gente mostra como encaixá-las sem esticar demais a viagem.

Os clássicos continuam valendo

Este artigo não é um manifesto contra Paraty nem contra o Abraão. Os clássicos são clássicos por mérito: a maré subindo nas ruas de pedra de Paraty e a chegada de barco à Ilha Grande estão entre as melhores cenas do litoral brasileiro, e cortá-las da primeira viagem seria um erro. A sugestão é outra: use os clássicos de porta de entrada e reserve dois ou três dias pro que está fora da rota internacional. O roteiro que junta Ilhabela, Paraty e Ilha Grande na mesma viagem mostra como fazer isso sem estresse de logística.

E se o que te atrai nesses lugares menos visitados é menos o vazio e mais o modo de vida que resiste neles, o caminho natural é o nosso guia dos lugares mais autênticos da Costa Verde, que entra nas comunidades caiçaras uma a uma. Vá antes que os guias internacionais atualizem a rota. Uma hora eles atualizam.