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Praia da Fome, em Ilhabela: como chegar, o que esperar e a história do nome

Publicado em 10 de julho de 2026 · 7 min de leitura

Águas transparentes e areia clara cercadas de mata na Praia da Fome, em Ilhabela
Praia da Fome. Foto: Priscila Mayumi de Souza, CC BY-SA 3.0, Wikimedia Commons

Tem um momento clássico na chegada à Praia da Fome: o barco desliga o motor, o silêncio ocupa o espaço e alguém olha pra baixo e pergunta se aquela água é rasa. Não é. É funda e transparente a ponto de enganar, uma das águas mais claras de Ilhabela, e a gente, que mora na ilha e já mandou muito viajante pra lá, sabe que essa pergunta é o começo de um dia bom.

A Fome é pequena, isolada e sem estrutura nenhuma. Fica na costa norte da ilha, num trecho onde a estrada simplesmente não chega: o acesso é por mar ou por trilha, e essa barreira natural explica por que ela continua sendo o que é. Este guia junta a logística real, o que esperar da praia e a história difícil que deu origem ao nome.

Onde fica

No norte de Ilhabela, adiante da Praia do Jabaquara, que é a última praia com acesso por estrada. Dali em diante a costa vira mata fechada de parque estadual, e a Fome aparece como uma enseada curta de areia clara espremida entre costões. Poucas embarcações param no pedaço, o que mantém a praia vazia até em janeiro.

Como chegar

Existem dois caminhos, e os dois são parte do programa.

De barco: as lanchas saem do Perequê, do lado do canal, e fazem o trajeto em pouco tempo de mar, geralmente entre 20 e 40 minutos conforme o barco e a condição do dia. As escunas de passeio também incluem a Fome em roteiros pelo norte, num ritmo mais lento e com outras paradas. Em qualquer formato, feche na véspera, confirme o horário da busca e a política de cancelamento: vento sul cancela saída sem consultar os seus planos.

De trilha: a caminhada parte do canto da Praia do Jabaquara e cobre uns 4 km de mata, entre 1h30 e 1h40 de passos, com trechos de subida e visuais de mar aparecendo entre as árvores. Pra chegar ao início, você já encarou os 8 km de estrada de terra do Jabaquara, então o dia combina carro, perna e recompensa. Tênis com solado bom, água e repelente fazem toda a diferença. Se trilha é a sua linguagem, o nosso guia das melhores trilhas de Ilhabela tem o resto do cardápio.

Sem carro também dá: lancha fechada em grupo desde o Perequê resolve o dia inteiro, e o nosso guia de Ilhabela sem carro mostra como o resto da ilha funciona a pé e de ônibus.

Rio desaguando na Praia do Jabaquara, ponto de partida da trilha para a Fome O Jabaquara, onde a estrada acaba e a trilha pra Fome começa. Foto: Maristela Colucci/MTur, domínio público, Wikimedia Commons

A praia

Areia clara, mar quase sempre calmo e uma transparência que virou a assinatura do lugar. É praia de máscara e snorkel: a flutuação rende peixe ornamental nos costões e o fundo aparece inteiro nos dias sem vento. Não espere quiosque, banheiro ou aluguel de cadeira; espere sombra de árvore, pedra pra sentar e o tipo de silêncio que faz o grupo baixar a voz sem combinar.

Na paisagem, um casarão antigo se destaca sobre o verde. Ele foi erguido sobre ruínas do século XIX e hoje é casa de veraneio, mas é o fio que puxa a história do nome.

Por que “Fome”

As versões se cruzam, e nenhuma é leve. A mais repetida pelos caiçaras conta que a enseada abrigou, no século XIX, uma fazenda de engorda de africanos escravizados: pessoas que desembarcavam debilitadas da travessia do Atlântico eram alimentadas ali antes de serem vendidas, já com o tráfico operando na ilegalidade. Estudiosos ponderam que o local dificilmente foi um polo grande de tráfico, mas as ruínas de senzala sob o casarão existem, e a memória oral da ilha sustenta o relato. Outra versão, mais antiga, fala de náufragos famintos que alcançavam a praia.

A gente escolhe contar essa história inteira porque o lugar pede. Nadar numa água dessas sabendo o que a enseada já viu muda a qualidade da visita: menos cenário, mais território com passado. Ilhabela tem camadas assim em quase toda praia, e é por isso que os nossos guias insistem tanto em história e cultura caiçara junto com o protetor solar.

O que levar

A lista é curta e inegociável: água em quantidade, comida pronta, repelente reforçado (praia isolada com mata e água limpa é o habitat preferido do borrachudo), máscara de snorkel, protetor solar, dinheiro vivo pra qualquer imprevisto de barco e um saco pro lixo, que volta inteiro com você. Se for de trilha, some tênis, capa de chuva leve e o hábito de avisar alguém do seu horário previsto de volta.

Quando ir

O inverno é o segredo: de maio a agosto o mar fica mais claro, a trilha seca e as saídas de barco cancelam menos. A régua completa mês a mês está na nossa melhor época para visitar Ilhabela, e o argumento inteiro a favor da estação fria está em Ilhabela vale a pena no inverno. Entre 16 de maio e 16 de agosto tem ainda o bônus maior do ano: é a temporada de baleias no litoral da ilha, e a gente opera saídas de avistamento desde o Pier da Vila, no centro histórico, por R$ 320, com a ressalva honesta de que avistamento é natureza, não garantia.

Um dia na Fome, hora a hora

A versão de barco: 8h30, embarque no Perequê com o mar ainda liso, que é quando o canal se comporta melhor. 9h, desembarque na enseada, a praia inteira sua. Manhã de snorkel nos costões, com o sol entrando na água e iluminando o fundo. Meio-dia, almoço de mochila na sombra, sem pressa, porque não existe fila nem conta pra pedir. Início da tarde, a leitura ou o cochilo que a cidade nunca deixa. 15h30, o barco volta, e a regra de ouro é estar na areia no horário combinado: piloto não gosta de procurar passageiro e o mar da tarde costuma mexer mais.

A versão de trilha inverte a lógica: saída do Jabaquara às 8h pra caminhar no fresco, chegada à Fome por volta das 9h40, o dia inteiro pela frente e a volta iniciada até as 15h, com folga de luz. Nos dois formatos, o dia rende mais em dupla ou grupo pequeno: a praia é curta e o silêncio é parte do que se foi buscar.

Perguntas rápidas

“O mar é seguro?” Em dia calmo, sim, e a transparência ajuda a enxergar o fundo. Com ondulação, entre com cautela e sem heroísmo: praia isolada significa socorro distante.

“Tem sombra?” Tem, de árvore, nas bordas da areia. Guarda-sol é bem-vindo pra quem vai passar o dia.

“Criança vai bem?” Criança que já nada e curte máscara, sim, de barco. A trilha e a falta de estrutura pesam pros pequenos; pra essa fase, o nosso guia de praias para famílias tem opções mais generosas.

“Pega sinal?” Conte que não. Avise horários antes de embarcar e combine tudo com o barqueiro em terra.

“Vale em dia nublado?” Vale, com ressalva: a mágica da Fome é a transparência, e ela rende mais com sol entrando na água. Se a previsão for de céu fechado a semana toda, priorize a praia mesmo assim pelos costões e pelo silêncio, mas ajuste a expectativa do snorkel.

Como encaixar a Fome na viagem

O par perfeito é o Jabaquara: mesma região, um dia inteiro, com a lagoa de água doce de um lado e a trilha do outro. Quem tem mais dias emenda as outras escondidas do norte e do leste, todas mapeadas no nosso guia de praias secretas de Ilhabela, e quem quer contexto geral começa pelo ranking das praias mais bonitas e pelo o que fazer em Ilhabela.

Sobre a base: quem escreve é a equipe do Hostel da Vila, eco lodge no centro histórico, do lado do canal, a poucos minutos do Perequê de onde saem as lanchas. A logística de morar aqui é a mesma que a gente empresta pro hóspede: café cedo, mochila leve e o barco esperando.

A Fome é o tipo de praia que se ganha, não que se visita. O esforço de chegar filtra quem vai, o silêncio recompensa quem foi e a história pede respeito de todo mundo. Feche a lancha, separe a máscara e vá conhecer a água mais transparente que este arquipélago mostra a quem insiste.