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Praias secretas de Ilhabela: as que só se alcançam por mar ou trilha

Publicado em 10 de julho de 2026 · 7 min de leitura

Praia deserta de águas transparentes cercada de Mata Atlântica, a Praia da Fome em Ilhabela
Praia da Fome. Foto: Priscila Mayumi de Souza, CC BY-SA 3.0, Wikimedia Commons

Todo morador de Ilhabela guarda uma praia na manga. É aquela que a gente não posta, que indica em voz baixa depois de medir se a pessoa vai cuidar do lugar. Este artigo abre algumas dessas cartas, e abre com uma condição combinada já na primeira linha: praia sem estrutura é praia que devolve exatamente o que recebe. O que entra na mochila volta na mochila, incluindo cada lata e cada bituca.

O motivo de tanta praia escondida é simples: a maior parte da ilha é parque estadual de Mata Atlântica, sem estrada. Das mais de 40 praias do arquipélago, a minoria tem asfalto na porta. O resto se alcança por mar, por trilha ou pela combinação dos dois, e é exatamente essa dificuldade que preserva a água transparente e o silêncio que você vai encontrar.

Antes de ir: as regras do jogo

Nada de comércio na maioria delas, então água e comida vão com você. Repelente é item de sobrevivência, porque rio limpo cria borrachudo e as praias isoladas são o território dele. Dinheiro vivo pro que aparecer, porque sinal de celular é loteria. E o mar manda: lancha e escuna cancelam com vento sul, então nunca deixe uma praia de barco pro último dia da viagem. Pra escolher a janela certa, vale ler a nossa melhor época para visitar Ilhabela: de maio a agosto o mar fica mais claro e as trilhas secam.

Praia da Fome

A mais acessível das inacessíveis. Fica na costa norte, depois do fim da estrada: ou você vai de lancha desde o Perequê, ou caminha 4 km de trilha na mata a partir do Jabaquara, coisa de 1h30 a 1h40. A recompensa é uma enseada pequena de areia clara com uma das águas mais transparentes da ilha, calma o bastante pra flutuar de máscara olhando o fundo. Poucas embarcações param ali. O casarão antigo da praia carrega a história dura que deu origem ao nome, e ela merece ser lida antes da visita: contamos tudo no nosso guia da Praia da Fome. Micro-ação: feche a lancha na véspera e combine o horário de retorno com o piloto antes de descer.

Saco do Eustáquio

Lado leste, só por mar. A enseada de 150 metros fica protegida pela Ponta da Cabeçuda e pela Ilha de Búzios, e a proteção fabrica uma água parada de lagoa, transparente até o fundo. Uma pequena comunidade caiçara vive ali e recebe os barcos com peixe frito e frutos do mar a preço justo, um dos almoços mais honestos da ilha. Micro-ação: suba a elevação de pedras no canto esquerdo da praia; a vista panorâmica pega a baía de Castelhanos e a ilha da Serraria, e a maioria dos visitantes nem descobre que ela existe.

Praia da Serraria

Vizinha do Eustáquio e ainda mais vazia, porque os barcos de passeio quase não param. São uns 400 metros de areia clara e larga, mar calmo, casas de pescadores coloridas no meio das árvores e uma comunidade que ainda vive da pesca artesanal. Entre ela e o Eustáquio existe uma trilha de 3,6 km, nível fácil, que passa pelas praias das Guanxumas e da Caveira, pelo Poço da Nega e pelas ruínas da serraria que batizou o lugar. Micro-ação: peça pro barco deixar você numa praia e buscar na outra; a travessia a pé leva 1h30 e transforma o dia. O nosso guia das melhores trilhas de Ilhabela tem essa e outras do mesmo naipe.

Praia da Pacuíba

A secreta democrática: dá pra chegar sem barco. Fica no norte, a uns 16 km da balsa, escondida da estrada por uma trilha curta que faz as vezes de portaria. São só 127 metros de areia, com um gramado macio e árvores chapéu-de-praia fazendo sombra na beira. Sem quiosque, sem som, com água clara cheia de tocas pra snorkel de iniciante. Micro-ação: vá de ônibus municipal mais caminhada ou de carro cedo, e leve tudo o que pretende consumir. O nosso guia de Ilhabela sem carro mostra como o norte funciona sem volante.

Rio encontrando o mar na Praia do Jabaquara, no norte de Ilhabela Jabaquara: o fim da estrada e o começo do segredo. Foto: Maristela Colucci/MTur, domínio público, Wikimedia Commons

Praia do Jabaquara

Rigorosamente, não é mais secreta: tem estrada. Mas os últimos 8 km de terra com subidas íngremes seguram a multidão, e quem chega encontra uma praia de areia clara cortada por dois riachos, com uma lagoa de água doce atrás da faixa de areia e um mar transparente de tombo. É a porta de entrada das secretas do norte, já que a trilha pra Fome começa ali. Micro-ação: leia o nosso guia completo do Jabaquara antes, principalmente a parte sobre a estrada em dia de chuva.

Praia do Bonete

O segredo que o mundo descobriu e que mesmo assim segue sendo segredo, porque o acesso não perdoa: 16 km de trilha pela mata ou lancha contornando o sul da ilha. A vila caiçara de cerca de 300 moradores vive no próprio ritmo, o mar de tombo quebra forte pros surfistas e o The Guardian já colocou a praia entre as dez mais bonitas do Brasil. Quem dorme uma noite na vila entende por que a lista deste artigo existe. Micro-ação: leia o guia do Bonete e o relato da trilha antes de decidir entre o barco e as pernas.

Canoas caiçaras na areia da Praia do Bonete Bonete: a vila que o acesso difícil protege. Foto: João Lara Mesquita, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons

As perguntas que a gente mais ouve sobre as escondidas

“Dá pra fazer mais de uma no mesmo dia?” Dá, e é o formato que recomendamos: Jabaquara com Fome pela trilha, Eustáquio com Serraria pela travessia a pé ou pelo barco que espera. O erro clássico é tentar norte e leste no mesmo dia; o mar até permite, o relógio não.

“Preciso de guia?” Nas trilhas curtas descritas aqui, com tempo bom e saída cedo, um caminhante atento se vira com mapa offline e bom senso. Na dúvida, nas trilhas longas ou em qualquer dia de chuva, guia local: além da segurança, a caminhada rende o dobro de história, e contratar gente da ilha é a forma mais direta de o turismo devolver algo às comunidades que mantêm essas praias vivas.

“Tem onde comer?” No Eustáquio e na Serraria, o peixe das famílias caiçaras quando há movimento; no Jabaquara, quiosques simples; na Fome e na Pacuíba, nada. A regra prática: leve comida como se não houvesse nada e receba qualquer quiosque como presente.

“E se o tempo virar?” Vira mesmo, e rápido. Barco cancelado não é viagem perdida: a ilha guarda cachoeira, centro histórico e mirante pra esses dias, e o nosso o que fazer em Ilhabela lista os planos B à altura. Quem viaja com poucos dias deve botar as praias de barco no início do roteiro, com margem pra remarcar; a conta de dias está no quantos dias ficar em Ilhabela.

Como fechar barco sem dor de cabeça

As lanchas e escunas de passeio saem majoritariamente do Perequê e dos píeres do lado do canal. Escuna é mais barata e mais lenta, boa pra quem quer o dia inteiro no mar com paradas; lancha fechada em grupo dá liberdade de roteiro e horário. Em qualquer formato, confirme dois pontos antes de pagar: o horário da busca e a política de cancelamento por mau tempo.

Entre 16 de maio e 16 de agosto, o caminho de barco ganha um bônus: é a temporada de baleias no litoral da ilha, com as jubartes em pico de junho e julho. A gente opera saídas de avistamento partindo do Pier da Vila, no centro histórico: R$ 320, 3h30 de mar, com o aviso honesto de sempre, avistamento é natureza e não contrato.

E aqui a transparência da casa: quem escreve este blog toca o Hostel da Vila, um eco lodge no centro histórico, do lado do canal, aberto desde 2016. É dali, entre a mata do terreno e o movimento da Vila, que saem as nossas manhãs de exploração e as conversas de balcão que viram estes guias.

Segredo de praia funciona como qualquer segredo: sobrevive enquanto for tratado com cuidado. Leve o lixo de volta, respeite quem mora nas comunidades e escolha uma da lista pra começar. O nosso ranking das praias mais bonitas de Ilhabela espera você na saída, pra próxima rodada.