Como fazer uma viagem de ilha em ilha pela Costa Verde

O island hopping tem endereços consagrados: as Cíclades na Grécia, o mar de Andamão na Tailândia, El Nido nas Filipinas. O Brasil quase nunca entra nessa conversa, e é uma injustiça geográfica, porque entre São Paulo e o Rio de Janeiro existe um corredor de 294 km de costa onde a maior ilha marítima do país, um parque estadual insular, uma ilhota de snorkel e a ilha sem carros mais famosa do Brasil se alinham na mesma rota, com um fiorde de bônus no meio. Dá pra atravessar tudo isso numa viagem só, de balsa, ônibus e barco.
A gente escreve com lado declarado: o grupo que mantém este blog tem um hostel em Ilhabela, a primeira ilha da rota, e uma escuna que sai de Paraty, o porto da segunda metade. É por viver nas duas pontas que conseguimos te contar como esse desenho funciona na prática, com os números reais de cada trecho, a versão por conta própria e o elo do caminho que dá trabalho de verdade. Ele existe, e fingir que não seria propaganda, não guia.
A rota no mapa
O desenho é uma linha com quatro ilhas penduradas nela:
- Ilhabela (SP): a base de partida, colada em São Sebastião por uma balsa de 20 minutos.
- Ilha Anchieta: a escala esquecida, um parque estadual a um passeio de barco de Ubatuba.
- Ilha dos Meros: a ilhota de água clara no litoral sul de Paraty, parada de café e snorkel.
- Ilha Grande (RJ): o destino final, sem um carro sequer em todo o seu território.
No meio do caminho, Paraty faz o papel de porto e dobradiça da viagem, e o Saco do Mamanguá, que não é ilha e sim o único fiorde tropical do litoral brasileiro, entra como o desvio que ninguém dispensa. A ordem funciona nos dois sentidos; a gente prefere começar por São Paulo e terminar no mar do Rio, porque assim a parte mais rígida da logística fica no meio da viagem, quando o roteiro ainda tem gordura, e o final acontece a bordo, sem relógio.
Ilha 1: Ilhabela, a partida
A chegada já dá o tom da viagem: o ônibus da Pássaro Marron sai de São Paulo por R$ 101 a 123, chega a São Sebastião em cerca de 4h30, e a balsa cruza o canal em 20 minutos sem cobrar nada de quem vai a pé. Reserve duas ou três noites pra ilha: as praias do lado do canal se resolvem de ônibus municipal, as cachoeiras e mirantes pedem meio dia cada, e o guia completo de Ilhabela ajuda a escolher.
A base que recomendamos é a nossa, e o motivo é geográfico antes de ser afetivo: o Hostel da Vila fica no centro histórico, do lado do canal, a uma caminhada da balsa por onde você chega e parte. Na prática, isso significa começar a rota de ilha em ilha sem pegar um táxi sequer: desembarcar a pé, dormir entre os 8.000 m² de mata do terreno, fechar a noite no Floresta Bar e voltar pra balsa no dia da partida do mesmo jeito que veio.
Escala: Ilha Anchieta, a ilha que quase ninguém emenda
De São Sebastião, ônibus intermunicipais sobem o litoral até Ubatuba, e é dela que sai a escala mais subestimada da rota: os barcos do Saco da Ribeira cruzam até a Ilha Anchieta, um parque estadual inteiro, com praias de água calma, trilhas curtas e as ruínas de um antigo presídio sendo engolidas pela mata. É um bate-volta de um dia, o que na prática pede uma noite em Ubatuba antes ou depois. Se os seus dias estiverem contados, este é o trecho que se corta primeiro sem culpa; se sobrarem, é o tipo de lugar que os roteiros apressados nunca alcançam.
O elo duro da corrente: Paraty e Ubatuba
Honestidade em parágrafo próprio, porque o assunto merece: a ligação de ônibus entre Ubatuba e Paraty é o trecho mais frágil da viagem inteira. São poucos horários por dia, eles mudam com frequência e os sites de busca nem sempre acompanham. A regra que a gente repete pra todo hóspede: confirme os horários na rodoviária assim que chegar na cidade, priorize as saídas da manhã e nunca aposte no último ônibus do dia. Se nada encaixar, as alternativas são dormir uma noite extra ou dividir um transfer. O passo a passo desse e de todos os trechos está no manual da Costa Verde sem carro.
A recompensa do outro lado compensa o esforço: o centro histórico de Paraty, com as ruas de pedra que a maré grande invade, os lampiões acendendo no fim de tarde e o cais de onde a segunda metade da viagem começa.
Ilhas 2 e 3: Meros e Ilha Grande, costuradas por uma expedição
Aqui vem o dado que muda o desenho de tudo: por transporte público, não existe ligação direta entre Paraty e a Ilha Grande. Quem vai por conta precisa voltar de ônibus até Angra ou Conceição de Jacareí e pegar lancha ou barca de lá, gastando quase um dia inteiro de conexões. É exatamente esse buraco que o barco do nosso grupo existe pra fechar, e por isso a recomendação aqui é dita sem rodeio: o jeito que a gente considera definitivo de fazer o trecho fluminense da rota é a bordo do Albatroz, a escuna de 23 metros que sai da marina de Paraty com 24 hóspedes, 10 camarotes com ar e um chef cozinhando a bordo.
Na expedição de três noites (por volta de R$ 1.491 em 2026, chegando a R$ 1.992 em feriados, em até 10x sem juros), o barco amanhece na baía de Ilha Grande, abre o dia na Lagoa Azul ou na Praia do Dentista, passa a tarde na Vila do Abraão e, na manhã seguinte, desembarca você na Praia do Pouso pra trilha de 20 minutos até Lopes Mendes, horas antes de as escunas de bate-volta aparecerem. A tarde termina na Lagoa Verde e a volta inclui café da manhã fundeado na Praia do Jurumirim.
A Lagoa Azul, primeira parada do barco na baía de Ilha Grande. Foto: Marcio Sette, CC BY-SA 3.0, Wikimedia Commons
A versão de cinco noites, a Combinada (entre R$ 2.481 e 2.635 em 2026), é a que completa a coleção de ilhas: soma um dia livre em Paraty e o roteiro do litoral sul, com café e snorkel na Ilha dos Meros, churrasco do chef na Praia Grande da Cajaíba e a noite ancorada no Saco do Mamanguá, com luau e fogueira na praia aos pés do Pão de Açúcar. O fiorde não é ilha, tecnicamente. Ninguém a bordo reclama da imprecisão.
O luau da expedição, com fogueira na praia do Mamanguá. Foto: acervo do Grupo Hostel da Vila
Dois avisos práticos de quem opera o barco: a idade mínima a bordo é 7 anos, e a mochila precisa ser macia, porque mala rígida não cabe bem em camarote de escuna.
A versão inteira por conta: os números
Pra quem prefere montar cada trecho sozinho, os valores de 2026 que já publicamos nos guias da região:
| Trecho | Como | Preço aprox. | Atenção |
|---|---|---|---|
| São Paulo → São Sebastião/Ilhabela | Pássaro Marron + balsa | R$ 101 a 123, balsa grátis a pé | balsa de 30 em 30 min, 5h30 às 23h30 |
| São Sebastião → Ubatuba | ônibus intermunicipal | varia | horários mudam ao longo da semana |
| Ubatuba ↔ Ilha Anchieta | barco do Saco da Ribeira | varia | bate-volta de um dia |
| Ubatuba → Paraty | ônibus regional | varia | poucos horários, confirme na rodoviária |
| Paraty → Angra ou Conceição | Colitur L101 | R$ 27,50 | cerca de 2h |
| Conceição ↔ Ilha Grande | flex boat | R$ 45 a 150 por trecho | saídas de hora em hora, 8h às 17h |
| Mangaratiba ou Angra ↔ Ilha Grande | barca | R$ 20,50 | volta do Abraão às 10h da manhã |
Os detalhes de como chegar e circular na ilha final estão no guia de como chegar em Ilha Grande. E o desenho geral da viagem, com dias mínimos por parada e dois roteiros prontos, está em como conhecer Ilhabela, Paraty e Ilha Grande na mesma viagem.
Quando ir e quanto separar
De ilha em ilha, a época importa mais que o normal, porque tudo depende de mar. Abril, maio, setembro e outubro combinam chuva baixa, preço bom e praia vazia. O inverno é a estação que a gente defende em voz alta: trilhas secas, mar mais claro pro snorkel e, de maio a agosto, baleias-jubarte cruzando o litoral. O calendário completo está no guia da melhor época pra visitar a Costa Verde.
De orçamento, a régua honesta: a rota inteira pede de 10 a 12 dias. Por conta, um dia mochileiro completo fica na casa dos R$ 150 a 250, somando cama de hostel, comida simples e travessias. A expedição concentra o gasto num bloco só, mas repare no que o valor engole: três a cinco diárias de hospedagem, todas as refeições a partir do segundo dia, as travessias e os passeios que, comprados um a um, viram uma lista longa de bilhetes.
O mar como fio da viagem
Toda rota de ilha em ilha do mundo tem o mesmo segredo, e na Costa Verde ele fica evidente: o que transforma destinos soltos numa viagem só não são as ilhas, é a água entre elas. É a balsa de manhã cedo com a serra saindo da névoa, o convés na hora em que o sol desce, a fogueira numa praia que não tem estrada. Quem volta dessa rota não conta as praias que viu: conta as travessias.
As próximas saídas da escuna, com datas e vídeos de bordo, ficam no Instagram do Albatroz.
